Devanir Merengué

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RELACOES VOLATEIS, CORPOS TATUADOS

                                                             

 

                                                                        “O que temes se sabes que és mortal?”

                                                                                 Imre Kertéz, escritor húngaro

 

Resumo

O autor utiliza a tatuagem para discutir o conceito de conserva cultural, como proposto por Jacob Levy Moreno. Por que jovens e adultos se tatuam em um momento da História marcado pela volatilidade das relações humanas? Por que se fixar na moda de algo tão permanente quando o mundo moderno-liquido pede desprendimento? Se a tatuagem é uma conserva cultural, esse conceito precisa ser redimensionado, pois tem uma forte conotação de resistência ao mudancismo da pós-modernidade.

 

Descritores

 

Conserva cultural – espontaneidade criadora – tatuagem – contemporaneidade – tempo

 

Uma questão

 

A vida parece ter perdido o sentido que dávamos a ela. E isso há pouco tempo. Lá e então, havia um passado, um presente e a confiança em um futuro mais ou menos organizado. Havia muitos obstáculos, dogmas, tradições, preconceitos. Tudo isso era entendido como algo a ser superado. Jacob Levy Moreno se esmerou nessa luta: necessário, essencial era, então, o ato inaugural. Nesse sentido, o que é a espontaneidade criadora senão um novo começo, suplantando a conserva cultural vigente e limitadora?

 

Definitivamente: o mundo no qual vivia Jacob Levy Moreno era um mundo a ser superado. As conservas culturais tudo estancava, não era possível a fluidez, as transformações, o mundo aberto, as alternâncias libertadoras. A religião dogmática, o teatro dogmático, a ciência dogmática, os gestos dogmáticos... produzindo sentidos duros a um cotidiano vigiado.

 

Uma primeira questão que levanto nesse escrito é: Que novos sentido podemos dar na atualidade ao conceito de conserva cultural? Esta pergunta leva a uma outra: A contemporaneidade pede isso?

 

 

Utilizo a pesquisa de Cukier (2002) sobre a obra de Moreno e mais especificamente aquilo que diz respeito ao conceito de conserva cultural:

 

(...) constitui a maior de todas as barreiras à infiltração da espontaneidade no padrão total da civilização hodierna. (pgs. 56-57)

(...) está no final de um processo, um produto terminal. (pg. 57)

(...) continuidade e herança – assegurando para ele a preservação e a continuidade do seu ego. Esta provisão é de ajuda sempre que o indivíduo viva em um mundo comparativamente estável; mas que deverá fazer quando o mundo à sua volta se encontra em mudanças revolucionárias e quando a qualidade das transformações se converte, cada vez mais, numa característica permanente do mundo em que ele participa? (pg. 57)

(...) a conserva cultural é uma categoria tranqüilizadora. (...) As conservas culturais serviram para dois fins: eram prestimosas em situações ameaçadoras e asseguravam a continuidade de uma herança cultural. (pgs. 57-58)

O homem criou um mundo de coisas, as conservas culturais a fim de produzir para si mesmo uma semelhança de Deus. (pg. 58)

O esforço de evasão do mundo conservado é semelhante à tentativa de retorno ao paraíso perdido (pg.58).

 

Trata-se de um recorte, uma delimitação deliberada no conceitual moreniano para melhor argumentar e responder as questões levantadas. Priorizo o tema do tempo imiscuído na noção de conserva cultural: como se o tempo parasse e congelasse um produto resultante de um momento de criação. A conserva cultural é memória de um momento criativo, puro resultado de uma clareira no fluxo do tempo.

 

Moreno insiste na idéia de evasão em um “paraíso perdido”, das conservas culturais utilizadas como “muletas” para nossos medos, do nosso desejo infantil em ser deus. Em todas estas noções está presente a idéia de algo seguro, apaziguador. O que pode haver de mais garantido do que a imagem de um relógio parado que não nos empurrasse para o final temido?

 

A espontaneidade criadora, pelo contrario, retira do homem o controle sobre o relógio e este, solto no nada, no abismo do não sabido, se obriga a produzir, a inventar.

 

O sociólogo Zygmunt Bauman tem descrito o mundo da pós modernidade em que vivemos, chamando esta modernidade, de líquida. Sua extensa obra tem sido publicada no Brasil deixando entrever uma possível nostalgia (negada por ele em entrevistas[1]) e uma profunda desesperança nos dias que correm.

 

Chama de modernidade liquida um tempo que se contrapõe a uma modernidade sólida. Nesta havia nexos entre aquilo que outras gerações fizeram e o que as novas gerações farão, mesmo que a relação fosse de conflito. A liquidez diz respeito a algo fluido, que nos escapa a todo o momento. As identidades são frouxas, o medo é disforme, a ordem não tem rosto, o controle se espalha. As relações são bastante voláteis. Não esperamos mais algo tão conservado como um casamento para toda a vida ou uma aposentadoria conseguida no trabalho em uma única empresa. As migrações acontecem em todas as áreas da vida, mudar é a regra e não a exceção. E a não mudança constante e compulsória empurra o individuo a um inconveniente ostracismo.

 

É importante assinalar que as mudanças impingidas pela modernidade liquida nada tem a ver com as escolhas desejadas por Moreno: elas são impostas por uma sofreguidão do mercado, dos vínculos fugazes, da incerteza, da segurança que nos escapa sempre e sempre.

 

Bauman lembra que a compreensão dada por ele visa apenas e tão somente traçar esboços e não trazer soluções para algo tão complexo como, por exemplo, a globalização.

 

De qualquer modo, a necessidade de atualização teórica, no que diz respeito a conceitos tão básicos quanto conserva cultural e espontaneidade criadora, nos obriga a discutir e atualizar estes conceitos enquanto lastro teórico e operacional para o psicodramatista.

 

Tatuagem

 

A tatuagem como expressão humana se inscreve na história coletiva dos corpos. Falo do corpo de cada individuo em um vínculo (fácil, doce, duro, tenso...) ao seu tempo e seu lugar. Falo também das marcas deixadas pela humanidade em um sem fim de desenhos, símbolos, letras, números não fora, mas na pele - que se acabam com a morte, mas desenhos serão conservados até o fim da vida.

 

Esse desejo de desenhar, escrever sobre a pele tem em cada tempo e em cada lugar sentidos muito distintos, mas sempre podemos detectar a questão da durabilidade: a marca está feita, conservada nesta pele, neste corpo.

 

O corpo é linguagem: o que difere é se é autor da mensagem ou apenas vitima passiva daquilo que está inscrito no seu corpo. As mensagens podem ter significados nobres ou marcas da crueldade humana, banais em dado tempo e perturbadores em outro momento. O corpo, desse modo, é suporte, base para o atravessamento da história. Esse corpo não apenas recebe, mas também responde, interfere no fluxo dos acontecimentos. Kafka (1988) descreve no seu livro Na colônia penal corpos marcados e excluídos de modo semelhante ao processo pelo qual passaram judeus na Segunda Guerra Mundial. Ramos (2006) descreve as memórias de judeus, cujos corpos marcados por números identificatórios na pele, deixam a marca indelével da desumanização em massa. Revelam a intolerância para a diversidade. Ou nas palavras da autora:

 

O anti-semitismo, que tatuou milhares de judeus, ciganos e homossexuais, nada mais é do que a não aceitação do outro na sua diversidade étnica, religiosa, política, econômica, sexual e social, e é ainda hoje amplamente vivido por nós e traduzido nas constantes intolerâncias, intriga e guerra a que voltamos, ou sempre estivemos a presenciar. (pág. 4)

 

De qualquer modo retomamos a idéia da marca “eterna” inscrita nos corpos dos indivíduos diferentes dos nazistas e que, por isso, deveriam ser excluídos e assim garantir uma suposta superioridade alemã.

 

Interessa para mim, a tatuagem escolhida, não aquela imposta compulsoriamente. Não é possível, entretanto, separar tão distintamente as duas situações: o inteiramente imposto (como a dos campos de concentração) ou aquela escolhida (supostamente a do jovem urbano e ocidental). O filme de David Cronenberg Senhores do Crime (Eastern Promises, 2007) mostra o uso que a máfia russa faz da tatuagem: o corpo desenhado conta a história do indivíduo e a situação dele junto à organização. Nesse caso, o que mais importa no processo é o pertencimento ao grupo.

 

Ao que tudo indica os seres humanos que escolhem se tatuar, o fazem por diversas razões:

- ter um adorno puro e simples em local visível e que funcione como um brinco ou um batom com a função de se enfeitar e seduzir.

- marcar simbolicamente o corpo com um ou mais desenhos com o intuito de produzir uma memória concreta de fatos objetivos ou subjetivamente vividos.

- criar para si um corpo distinto dos demais e, assim, se apropriar dele singularmente.

- produzir uma marca de um grupo especifico, ao qual pertence ou deseja pertencer.

- agredir os pais, a família, a sociedade fazendo aquilo que, suposta ou concretamente, não é permitido.

- transformar o corpo, modificando-o radicalmente. Nesse caso, a tatuagem pode ser associada a outras intervenções como descreve Pires (2005).

 

As razões podem estar entrelaçadas, não sendo necessariamente excludentes. Assim, o simples ato de procurar um tatuador pode ser algo mais complexo do apreensível em um primeiro momento. O que me chama mais a atenção é o caráter aparentemente definitivo que tem uma tatuagem. Ou seja, o ato não diz respeito a um novo modismo, facilmente modificável. Trata-se de produzir um desenho que para ser retirado terá um alto custo financeiro, um difícil tratamento a laser e, em certos casos, com resultados discutíveis (Rodrigues, 2006, págs. 59 a 70).

 

O fato é que quando se busca a tatuagem busca-se também o definitivo: a estrela bela, o nome da amada, o versículo bíblico, o coração flechado e mais radicalmente, o nome das empresas que o tatuado trabalhou ou da namorada no pênis. Compreendo o ato como a tentativa de congelar um desejo, um símbolo, uma marca. O desenho, por mais simples e “decorativo” que possa ser, apreende uma intensidade qualquer. O desejo de “reter” o tempo concretizando-o me parece evidente.

 

Podemos aventar, desse modo, uma desconfiança na memória como lembrança. Seria preciso colecionar estes traços e cores para organizar uma narrativa do mesmo modo que guardamos cartas de amor ou bilhetes de viagem para se amparar nessa concretude quando o tempo passar. Como suportar a solidão em alto mar? O desenho de mulher, com cores vibrantes no peito do marinheiro, talvez seja mais “vivo” do que uma foto, por exemplo.

 

Mas até aqui pensamos na relação do tatuado com sua tatuagem. Um corpo tatuado não é, evidentemente, um corpo isolado. Ou seja, não é possível desprezar o caráter relacional da questão.

 

Papéis e tatuagem

 

As práticas e objetos ganham sentidos diversos no decorrer da história dos seres humanos e das sociedades sendo adaptados, complementados, reinterpretados na medida da necessidade e dos fluxos do co-inconsciente. Desse modo, podem ter sentidos opostos, dependendo do tempo e/ou do lugar (ver Araújo, 2005).

 

Desse modo, se a tatuagem perpassou culturas, ora alinhadas ao papel social “adequado”, ora em total “desacerto” (como veremos adiante), valeria a pena compreender como ela pode sobre-codificar os papéis. O médico vestido de branco, mas deixando entrever no braço uma bela tatuagem que teime em escapar pela manga da camisa, confirma um papel de profissional “moderno” ou complica um papel supostamente “de respeito” em uma sociedade conservadora? Aquela tatuagem estaria “a serviço” de algum papel imaginário que não necessariamente se alia com o papel social de médico em um meio urbano? Um ator busca tratamento à laser para retirar a tatuagem, pois alguns personagens vividos por ele no teatro, na televisão ou no cinema não são compatíveis com um corpo tatuado. Isto poderia não ser um problema para um artista circense. O desenho rígido sobre o corpo irá, assim, favorecer ou complicar o desempenho dos papéis sociais. Ou ainda ser algo absolutamente insignificante dependendo da tatuagem e do papel social.

 

O aspecto relacional é eixo importante na questão: mesmo que o tatuado diga que se tatuou para si apenas e tão somente, seu desenho objetivamente poderá servir para seduzir, afastar, agredir o outro dependendo das intenções conscientes ou inconscientes implicadas. Uma tatuagem nos genitais difere do efeito de uma tatuagem no rosto, sendo que a primeira diz respeito supostamente a vida amorosa do(s) envolvido(s), enquanto a segunda, amplos aspectos de papéis e funções.

 

Uma tatuagem anuncia no seu conteúdo ou na sua forma algo explicito ou implícito, mais ou menos apreensível ao “leitor”. Uma gama de signos que se interpõem nos vínculos, aproximando ou afastando. Podemos imaginar uma verdadeira sociometria bem viva acontecendo entre tatuados e tatuados, não-tatuados e tatuados, perpassando sutilezas e preconceitos entre os envolvidos. Frequentemente os desenhos tatuados condensam uma história como em um sonho, um poema, uma ferida (simbolizada por uma rosa?). Imaginemos esse desenho sendo exposto no jogo social...

 

Retomando o conceito de papel imaginário (Naffah, 1979, Merengué, 2003) como um papel de algum modo guardado e impedido de ser vivido no contexto social, muitas vezes asfixiado pelo papel social, a tatuagem pode ser parte dessa história. Um exemplo é a história narrada por um cliente que impossibilitado de namorar uma colega de seu curso universitário, já que ela o rejeita, tatua um retrato dela nas costas. Fica instaurada uma tensão entre papel social sem contra papel (namorada “ausente”) e papel imaginário com um contra papel imaginário representado pelo desenho da moça em forma de tatuagem. A (triste? lírica? louca?) resolução encontrada por ele foi tatuar o rosto dela, eternizando o amor. 

 

Podemos imaginar que a tatuagem pode não estar associada uma narrativa tão consciente, mas a algo não compreendido como em um sonho cujo sentido não foi apreendido. O olhar psicodramático estimularia a busca de cenas e significados para estes desenhos aparentemente destituídos de significado. r5555555555555555555555555555555555555555555555555555555555555555555555555555555555555555555555555ó5555555555555555