Devanir Merengué

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Devanir Merengué

IDENTIDADES E NOMADISMO

I Atividade promovida pela Sociedade Goiana de Psicodrama 

10º. JORNADA GOIANA DE PSICODRAMA
 
 
ASPECTOS GERAIS DO PSICODRAMA: O QUE É? A QUE SE PROPÕE? 
 
IDENTIDADE E NOMADISMO
 
 Devanir Merengué   
 
 
 
Ao contrário do que parece, não é fácil responder questões simples e que pedem respostas que não deveriam ser simplistas. Eu temo a confusão entre simplicidade e superficialidade, clareza e pouca solidez.
 
Por isso, tento responder ‘O que é o Psicodrama?’ e ‘A que se propõe?’ de um modo subjetivo, pessoal, a única maneira de buscar, no meu entender, uma fuga voluntária da superficialidade.
 
Quando perguntamos sobre o que é pressupomos que o Psicodrama é algo sólido e que tem, portanto, uma identidade. A idéia de identidade, por sua vez, indica algo que não muda ao longo do tempo e nos diversos lugares, que tem uma consistência própria. Pressupõe ainda que ele é “idêntico a si mesmo”, como alguém que se reconhece no espelho. A idéia pode ser ou parecer conservadora, pois o que é que persiste no tempo? Uma árvore é diferente a cada dia, um rio é diferente a cada minuto, nós somos diferentes todo ano... Mas algo se conserva?
 
O ‘a que se propõe’, por sua vez, busca uma intencionalidade, mas também uma funcionalidade, um projeto que, talvez, esteja associada à mesma questão da identidade. Caso tenhamos em mente que as identidades são mutantes, as proposições mais ou menos também teriam uma plasticidade. Supondo que o Psicodrama tenha algo que se conserve, sua funcionalidade do mesmo modo.
 
Temos aí, pois, uma primeira questão que me parece potente: o Psicodrama tem uma identidade? A identidade é uma conserva cultural necessária ou atrapalha a espontaneidade criadora?
 
Para tentar continuar dando alguma resposta conto um sonho que tive faz muitos anos.
 
Eu tinha 25 anos mais ou menos e minha vida estava absolutamente difícil em muitos sentidos. No sonho eu estava suspenso ‘no ar’ e via o azul do cosmo. Estava tentando me equilibrar sobre uma cama elástica estendida, não se sabe como, no vazio. Buscava um equilíbrio nas bordas arrastando os pés, mas em todos os lugares nos quais tentava esse equilíbrio,  era muito difícil conseguir qualquer estabilidade.
 
Vocês podem estranhar que eu tenha escolhido um sonho e não uma cena psicodramática clássica: dificuldades nos relacionamentos familiares ou amorosos, as conhecidas cenas com um chefe insuportável ou um sintoma a ser compreendido, etc... O sonho, especial objeto de estudo das psicologias e pouco estudado pelo Psicodrama, é no meu entendimento um bom exemplo para tentar responder o que é o Psicodrama e se teria uma identidade.
 
Para começo de conversa, podemos perguntar se o Psicodrama é uma Psicologia, ou está próxima de alguma Psicologia. A resposta é evidente: sim, claro! O diretor, já no contexto dramático, iria dirigir ao cliente e dizer mostre como é o sonho. Eu, o cliente, caminharia para um espaço e diria:
‘Aqui temos a cama elástica solta no vazio.
E aqui estou eu tentando me equilibrar.’
 
O diretor iria, pois, tentar me ajudar a procurar um modo de estar nessa cama.
Evidentemente, estaríamos apenas abrindo uma questão: quem era aquele jovem, tão perdido, tão distante da terra, com os pés tão longe do chão? O cliente poderia concluir:
 
‘Tenho medo da realidade.’
Ou
‘O que a realidade me oferece é muito chato e eu prefiro o mundo da fantasia’.
Ou
‘Acho melhor ser um ginasta’.
 
 
Será isso o que se pede das psicologias? Um instrumental para compreender os sentimentos humanos, a subjetividade humana? O psiquismo ou o comportamento humano? Precisaríamos mais, compreender também o entorno? Um psicodramatista diria que sim: “Não existe psiquismo solto, picotado da sociedade como sua cama elástica distendida no nada”. E eu teria que reconsiderar: talvez o Psicodrama seja mais que uma Psicologia, uma outra vertente de Psicologia.
 
 
Em seguida, eu teria que me perguntar, então,  se o Psicodrama tem alguma afinidade com a Psicologia Social ou com alguma Sociologia e de novo, responder: Sim, claro. E prontamente responder que fazemos Sociodramas e Teatros Espontâneos, que lidamos com o social o tempo todo. Mas como podemos pensar em relações sociais em um sonho com apenas um personagem?
 
O diretor poderia, então, tentar dar alguma saída:
O que está acontecendo nas suas relações?
Por que sua vida está tão desconectada do real?
Onde está colocado o conflito: na vida amorosa, na vida profissional?
Você gostaria de trazer, digamos, algum personagem que não está aí?  
 
No sonho temos um corpo que busca solitariamente um lugar (no mundo?). Quais os papéis que estão colados nesse corpo? O de filho, o de amante, o de psicólogo, o de amigo? Algum papel o colocou nessa situação complexa?
 
Podemos teorizar que os papéis vividos em um sonho são papéis imaginários. E que os papéis imaginários mantém, com sabemos,  relações importantes com os papéis sociais. Estão em oposição, em tensão, apenas em simetria, guardam aquilo que não é desejado pela sociedade, guardam  um ou outro aspecto indesejado? 
 
Estamos caminhando para uma complexidade crescente, pois talvez o Psicodrama tenha algo do que convencionalmente chamamos de Psicologia, mas também não está desconectada das relações sociais. Os papéis sociais pressupõem uma interface com um imaginário. E, é preciso lembrar, o conceito de papel social é um dos pilares do conceitual moreniano. 
 
Mas, não vamos deixar o personagem solitário no contexto psicodramático.
 
Caminha se arrastando por algo que parece ser uma lona, sente uma angustia enorme, uma solidão ainda maior.
 
Quando falamos de psicologia, psicologia social, sociologia estamos, claro, no campo das ciências humanas, tentando compreender como o Psicodrama poderia se inserir aí. Com freqüência temos a impressão de uma inserção pouco confortável, ou que pressuporia adaptações e um sem fim de dúvidas e questões em aberto.
 
Tento saber o que é o Psicodrama por uma outra via: aproximando-o da arte. Evidentemente a primeira questão que as pessoas fazem quando ainda não conhecem o Psicodrama: Psicodrama é teatro? A resposta mais óbvia é: embora tenha raízes no teatro, Psicodrama não é teatro convencional. 
 
Retomando a cena do sonho, poderíamos nos perguntar se ela poderia vir a ser espetáculo teatral. Sim, claro, mas com outro pressuposto, com outra intenção que não tratar ou compreender. Que bela cena teatral poderíamos imaginar: um personagem se arrastando na lona elevada, com um azul celestial clareando tudo.
 
Psicodrama não é teatro, mas faz fronteira com ele. Vejamos: contamos uma história, assumimos papéis, buscamos o conflito, procuramos algum desfecho. 
 
O sonho relatado tem um espaço marcado dentro da imensidão cósmica, espaço cênico, da ação dramática propriamente dita.
 
Psicodrama tem sido cada vez relacionado com cinema, pois a agilidade, a mudança de perspectiva, as narrativas quebradas abrem enormes perspectivas para o trabalho psicodramático. Desse modo, se um diretor tivesse, digamos, uma ‘pegada’ mais cinematográfica poderia dirigir a cena como se dirige um filme, como drama, como comédia, repetindo cenas, trabalhando com longos planos, com close no rosto do ator e outras possibilidades mais.
 
Mas Psicodrama não é teatro exatamente, nem cinema. 
 
O que é, então?
 
Moreno escreveu que o Psicodrama é a essência do sonho. Do que falava ele? A curta definição está situada nos escritos de Moreno para demonstrar casos e a técnica psicodramática para manejo de sonhos, sem que dê maiores explicações sobre o assunto.
 
Tento dar minha compreensão.
 
O que seria a tal “essência do sonho”?  Caso a tradução seja fiel ao pensamento moreniano e essência queira dizer a intenção talvez possamos reescrever que O Psicodrama tem a mesma intenção que o sonho.  Ou que o mesmo espírito move Psicodrama e o sonho?
 
Para não cair na facilidade de dizer que Psicodrama é idêntico ao sonho, prefiro tentar chegar ao ponto de um outro modo e dizer como compreendo o sonho.
 
Não sou um seguidor de Freud ou de Jung, embora conheça suas teorias e as respeite como uma inestimável herança deixada para a humanidade. Preferi, no entanto,  fazer um caminho outro, entendendo que os seres humanos são capazes de lançar luzes sobre suas produções, dando sentidos aos seus sonhos. 
 
Assim, prefiro entender o sonho como uma instância que media as relações dos humanos com a realidade:
- o sonho retrata a realidade, ou seja, o sonho re-apresenta a realidade.
- o sonho faz um recorte subjetivo da realidade.
- o sonho re-inventa a realidade. 
Podemos pensar que acontece tudo isso quando sonhamos.
 
Existe uma infinidade de Psicodramas e talvez por isso não seja fácil ter clareza do que venha a ser o Psicodrama. 
 
Existe um Psicodrama que chamei faz alguns anos atrás de Psicodrama de resultados e cuja intenção é, simplesmente, reapresentar a realidade para melhor controla-la. O ato pode ser feito com critica ou sem critica. No primeiro caso, o psicodramatista sabe que apenas treina para um melhor ajuste ao chamado mundo real. Na versão acrítica o treinamento é feito alegremente, pois não são desconsideradas relações de dominação, assimetrias, subjetividade. No que diz respeito aos sonhos, são aqueles que retomam uma cena tal qual acontecida.
 
Uma outra possibilidade é a cena focada no protagonista que re-presenta a realidade de algum ponto de vista, sem desconsiderar a imersão subjetiva do ator que desempenha o papel principal na cena. As saídas podem ser mais espontâneas e criativas ou mais conservadoras na relação com a realidade. O sonho teria mais complexidade não estando desconectado da realidade. Existem, no entanto, elementos díspares, disjunções, estranhezas, mudanças em relação ao real.
 
Uma terceira possibilidade é a cena que re-inventa a realidade. A desconexão aparente é imensa: aquilo nada tem a ver com o mundo real do sonhador, dirá talvez ele.
 
Pois bem: pressuponho que o sonho contado esteja nessa terceira categoria. Um sonho verdadeiramente estranho, na medida em que rompe com as leis da física, embora mantenha uma lógica interna e alguma verossimilhança. Um sonho passível de ser lembrado mais de 20 depois, talvez, penso eu, pela sua capacidade de transgredir, de discutir a existência, de buscar novos 
valores e de verdadeiramente anunciar algo de novo. 
 
Do mesmo modo uma obra de arte, pode ser visto como uma cena protagônica: onde patinamos? Por que tão distantes assim da realidade? Como retomar o equilíbrio? De que equilíbrio estamos falando? Ou seja, podemos pensar em uma infinidade de perguntas a partir do sonho. De algum modo, a obra de arte, se potente, nos obriga a olhar a realidade de um  outro modo.
 
O sonho relatado tem um caráter social, pois pode estar atravessado de uma infinidade de conflitos depositados em praticamente uma única cena.
 
O sonho é, portanto, uma obra aberta, suporte para muitos sentidos dados pelo sonhador ou outros.
 
O Psicodrama pode ser uma máquina facilitadora de sentidos, um instrumento que proporciona aberturas, não tão distantes do cinema, do teatro, da literatura, das artes plásticas.
 
A função do Psicodrama, no meu ponto de vista, diz respeito à libertação desses sentidos, rompendo com o significado único. Caso esteja à serviço de poderes que façam manutenção da ordem deverá necessariamente ter apenas um sentido.
 
Prefiro pensar o Psicodrama como um instrumento com alguma identidade (teoria, técnica) para novos desvelamentos da subjetividade humana. Mas também pensa-lo em um movimento nômade que não se deixa aprisionar pelos poderes e instituições que retirem seu caráter transformador. 
 
A crítica e a problematização, nesse caso, não se confunde apenas com a experiência racional, mas como uma obra de arte, tomar o ser humano por inteiro.
 
O diretor pede para que o protagonista busque um lugar nessa cama elástica. O protagonista caminha até o centro e começa a pular muito lentamente, depois um pouco mais alto e, por fim, muito alto. O equilíbrio se dá no centro da cama, mas a partir de um descontrole. Tem algo de lúdico, como uma criança brincando feliz com o vento soprando no seu corpo.
 
Temos aí reapresentação, performance, metáfora, presentificação, imaginação, invenção.
 
 
Devanir Merengué é psicólogo e psicodramatista.
E-mail: dmerengue@uol.com.br