Devanir Merengué

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PAPEIS PODERES GENEROS; O UNIVERSO TRANS

 

 
                                                                       
No projeto socionômico de Jacob Levy Moreno, e dentro do que o autor acredita ser elemento acessível e transformável, encontramos a noção de papel. A obra moreniana está basicamente assentada na idéia de uma sociedade a ser transformada, modificada. Neste sentido, o papel social, produzido em determinada cultura é, portanto, atravessado pela história, pela mentalidade de um tempo e um lugar, de uma economia e tantos quantos forem os elementos disponíveis nessa construção. 
 
Sabemos que recolhe o conceito da sociologia e da antropologia, mas é imensamente problematizado quando o mergulha na cena teatral, faz uma psicologização e, em seguida, uma des-psicologização da noção de papel. Estes trânsitos conceituais, já apontados na obra de Naffah (1979), mereceriam um maior aprofundamento tal sua importância. 
 
Este texto tem como foco a discussão da possibilidade de criação de novos papéis sociais tendo como sujeito da pesquisa a travesti e a/o transexual: o que estes sujeitos podem ensinar sobre a produção de papéis sociais na paisagem urbana, como essa “ferveção” do universo trans revoluciona o conceito de gênero e ainda qual o custo desta nova produção?
 
É impossível negar a sedução/rejeição que as travestis provocam sobre a sociedade normatizada: de um lado, temos a personagem urbana que, com alguma freqüência, vemos circular por ruas escuras, confinada, porém, em áreas conquistadas ou delimitadas que, com freqüência, não estão entre aquelas consideradas mais nobres urbanisticamente falando, produzindo com sua passagem e performance uma mulher hiper erotizada. Ou todos os descaminhos percorridos pelos/as transexuais. Por outro, uma eterna e insistente ameaça em borrar os gêneros feminino e masculino, uma das mais cuidadas conservas culturais da humanidade. Assim, a fascinante mulher guarda um pênis ameaçador. Ou um pênis poderoso que não combina com uma sedutora garota... Esse trânsito pelos gêneros discute verdades universais arraigadas pelas raças e culturas humanas. 
 
Muitos papéis sociais estão, como sabemos, amarrados, em algum ponto, às leis produzidas pelo Estado. Os delitos e contravenções estão na mira dos poderes vigentes, oficiais ou não. Compreender as dissonâncias entre papel e sociedade, como estão distribuídos dentre as classes, grupos, etnias, gêneros significa cartografar universos apontando controles e dominações. 
 
Este projeto visa, utilizando a discussão apontada acima, ir um pouco além da questão dos gêneros, para retomar a idéia de papel, na tentativa de dar mobilidade em diversos contextos nos quais ele aparece. Fica impossível falar de papel e não falar de alguns outros conceitos: todo o complexo teórico elaborado por Moreno não está construído por elementos isolados e, sim, por noções interdependentes, amarrados uns aos outros. .
 
O papel social se modifica nos tempos, mas também nos lugares em um mesmo momento. A travesti que se prostitui pode ser mais ou menos valorizada do que aquela que se apresenta em um palco, por exemplo. Ou o transexual que passa por uma cirurgia para mudança de sexo pode ter mais ou menos justificativa para seu comportamento do que a travesti que não quer mudar de sexo. Ou ainda, aqueles que se estabelecem socialmente como homem podem ser mais valorizados do que aqueles que desejam ser mulher. Ou vice-versa.
 
Por estar fora do normatizado, travestis espelham, de um modo mais ou menos inconsciente, a artificialidade com que são construídos historicamente os papéis: tudo é teatro e tudo é verdade. Essa discussão interessa quando pensamos o papel social como um discurso de controle.
 
A noção de papel, desse modo, é algo conceitualmente rígido. Um papel social está submetido aos controles de uma ordem, mas sua insurgência em espaços públicos produz, do mesmo modo, não necessariamente a passividade, mas atitudes reativas, escapes, saídas escusas, invenções não catalogadas. Assim, nem sempre conceito e experiência se aproximam. Podem até indicar antagonismo, possibilidades distintas. 
 
Moreno, ao estabelecer o palco como lugar de discussão, uma espécie de ágora contemporânea, reafirma a importância de enfrentar o real para melhor construí-lo: a realidade é pobre, a cotidianidade é regida pela superficialidade, os textos que os atores sociais recitam são marcados pela mediocridade. Assim como os artistas inconformados pela banalização da vida, Moreno propõe a discussão constante das cenas cotidianas, restaurando, modificando, inventando o mundo das relações humanas. Não se trata, desse modo, de negar a realidade. Nem de produzir universos paralelos desconectados dessa realidade. O projeto moreniano visa de modo claro e objetivo encarar as dissonâncias dessa realidade, produzindo uma f(r)icção, esfregando imaginário e os papéis sociais.
Defino f(r)icção como a experiência de criar papéis levando em conta elementos do imaginário social, conectados com determinada realidade, produzindo, assim, algo entre a ficção e o residual desta realidade. Esse processo não acontece de modo sereno, mas dolorido, trabalhado. Travestis e transexuais encarnam esta experiência de modo impressionante. A construção de personagens dentro das artes cênicas do mesmo modo, mas, neste caso, restrito ao espaço dramático. 
 
O UNIVERSO TRANS
 
 Travestis e transexuais, no presente recorte, tentam romper com a série instituída pelas sociedades de controle premiando o masculino e o feminino supostamente puros - sempre dispostos nesta ordem, o masculino dominante e o feminino dominado - e punem a ambigüidade que não se deixa capturar. Sim, porque a ambigüidade dócil é também desejável pelos sistemas, rapidamente transformada em produtos e mais controles. Interessa, pois, o que não se deixa instituir, mas, do mesmo modo, por que se deixa instituir quase sempre.
 
O conceito heteronormatividade (Butler, 2008) diz respeito aos modos, hábitos, estruturas que fazem a heterossexualidade parecer coerente e privilegiada, sendo que o masculino e o feminino marcados e encarnados devam ser desempenhados por um homem e uma mulher. Uma norma, fartamente autorizada e largamente repetida, pelos indivíduos que, de modo acrítico, a reconhecem. O tanto de distância que travestis e transexuais se colocam desta norma será, consequentemente, a intensidade da discriminação. A heteronormatividade pressupõe um sem-fim de encenações institucionais que garantem, na reprodução incessante, sua continuidade. 
 
O projeto heteronormativo está basicamente estabelecido sob a idéia da família nuclear, com controles estritos sobre o que deve e o que não deve acontecer com a sexualidade (neste ponto de vista entendida no singular), como a penetração pênis-vagina. Importa ainda a monogamia, a regulamentação da procriação, o prescrito para a mulher e para o homem em termos atitudinais, o cuidado com a sexualidade das crianças, a idade para se começar a ter experiências sexuais e por aí vai. E, além disso, aonde andar, com quais companhias, o que deve vestir, os bons pensamentos, o que deve ser dito, mostrado, vivido e o que não deve... enfim, tudo o que se pressupõe como sendo “bom” e não ambíguo e que, por isso, não dificulte os controles.
 
Entre a norma e o assegurado desvio não se pressupõem infinitos meios tons e inclassificáveis possibilidades e formatos que a sexualidade humana pode inventar. 
 
O que é uma travesti? Na bibliografia pesquisada pode ser alguém que constrói o corpo com hormônios e silicone ou alguém que nunca pensou nisso, alguém que deseja retirar o pênis ou alguém que nunca pensou nisso. Pode ser também uma transexual que vive como uma travesti. Ou uma travesti que começa a se dar conta que talvez seja uma transexual, pode ser um gayzinho que, começa a se prostituir e a utilizar hormônios femininos. Pode ser também uma “diva”, uma travesti que já se prostituiu na Europa. “Finas” que se situam territorialmente em lugares diferentes das que ficam na “rua da neca” [pênis], ou seja, que podem ser consideradas vulgares por trabalharem expondo e alisando seus pênis. Pelucio (2007) define travestilidade toda essa gama de indivíduos que rompem a fronteiras do gênero, transitando por eles, fazendo ou não modificações no corpo, mas, com certeza, usando roupas e indumentárias femininas. 
 
No universo trans, com alguma freqüência, se confirma o binarismo apregoado pela heteronormatividade, na medida em que, por exemplo, a travesti busca um “marido” e nas suas atitudes copia uma mulher cheia de glamour. Ou seja, na distância, reproduz em espelho a sociedade que a rejeita. Mas seria apenas isso?
 
O papel de travesti se constrói durante uma vida. Não parece ser incomum nos relatos destes pesquisadores citados (ver p.e. Benedetti, 2005:96) que o menino seja expulso de casa, espancado pelo pai ou pelos irmãos e que, após isso, inicie uma carreira de construção de um corpo, sendo a prostituição, usualmente, a saída possível. O percurso no espaço de uma cidade pequena para uma grande metrópole é, também, freqüente. E de uma grande cidade, se for suficiente bonita e feminina, para a Europa é o sonho de toda candidata a ser uma bela travesti. E, ao que parece, não surge como dado relevante ser de outra classe, senão de uma classe economicamente muito desfavorecida. Existem travestis das classes média e alta? Caso elas existam, onde estão? Por que as travestis são sempre pobres?
 
Pelucio, na tese citada, descreve assim a mobilidade do mundo trans:
“As travestis não se fixam. O corpo muda, o gênero oscila, os endereços se alternam, os celulares são trocados constantemente. Debruçar sobre essa mobilidade/fluidez é uma forma de pensar a própria constituição dessa cultura sexual, pensá-la em relação com seu entorno e, assim, com a heteronormatividade. A circulação das travestis, ainda que intensa, se faz pelas margens. É nesse território da abjeção que elas articulam suas redes fluidas que se articulam “no aqui”, para se desmancharem em um momento impreciso e se constituírem em outro lugar, um lugar sempre marcado, cujos nós são, paradoxalmente, fixos”. (pg. 78)
 
Um movimento freqüente se dá em torno da figura masculina, seja o cliente ou um “marido”. Existe a expectativa de encontrar um “homem de verdade”: aquele que como marido precisa exibir no espaço publico o estereótipo masculino exacerbado e no privado, ser exclusivamente ativo nas relações. Qualquer mudança que acene para o mais leve traço de feminilidade nesse homem, logo ele será rotulado de “maricona”. Existe uma clara diferença entre o que a travesti que se prostitui pode fazer com um cliente e o que pode fazer em casa, se tiver a sorte de encontrar o tal homem ideal. Na “pista” [o território da prostituição] pode tudo, desde que claramente contratado entre a travesti e o cliente. Em casa, é preciso que fiquem bem marcadas as regras que a travesti e o marido devem desempenhar, mantendo um binarismo muito rígido, na fala de algumas. Ninguém garante, no entanto, que tudo nestas falas, corresponda à descrição absolutamente fidedigna do que acontece de fato.
 
Desse modo, com certa facilidade encontramos o binarismo exacerbado implícito no “projeto” heteronormativo, mas, paradoxalmente, atuam sobre uma extrema dúvida: ficam situadas em uma região fronteiriça, movediça, em que as certezas se desfazem com uma freqüência que impressiona. Denizart (1997) mostra como a extrema feminilidade buscada pela travesti se junta a outras características tidas como masculinas como a autonomia, força de vontade, desejo de independência e se for preciso, extrema agressividade. E confirmando essa idéia, escreve Benedetti na obra citada:
“O feminino travesti não é o feminino das mulheres. É um feminino que não abdica de características masculinas, porque se constitui de um constante fluir entre esses pólos, quase como se cada contexto ou situação propiciasse uma mistura específica dos ingredientes do gênero”. (pg.96)
 
No ensaio de Bosco (2007) a ambigüidade da travesti parece ser elemento de sedução. Escreve ele, apoiado pelo pensamento da argentina Beatriz Sarlo: (...) “a ambigüidade está à mostra no corpo montado por hormônios e silicone, corpo que pode tender a um feminino puro, mas que nunca o alcança, nunca é capaz de apagar completamente as pistas do masculino”.
 
A tentativa de apagar o masculino sem, no entanto, destruí-lo inteiramente faz parte do jogo ambíguo.
 
A questão da ambigüidade aparece em Peres (2005:25) quando diz:
(...) “o corpo travesti traz em seu bojo a ambigüidade, a surpresa e a confusão dos códigos de inteligibilidade: um corpo aparentemente feminino que tem entre as pernas o órgão sexual masculino e, mais ainda, faz uso dele. Uma ambigüidade que coloca em cheque as classificações sexuais e os gêneros tradicionais, deixando muita gente confusa e perdida frente a essas novas identidades sexuais e de gênero”.
 
Vale a pena discutir se as tais “novas identidades” são novas no sentido temporal ou apenas atualmente estão sendo discutidas.
 
Benedetti, na citada pesquisa produzida na investigação feita pelas ruas e casas de Porto Alegre, mostra como se constrói um corpo visando transformar-se em uma travesti. Segundo ele, as mudanças começam pelo cabelo e pelas mãos: cuidados intensos. As unhas são absolutamente associadas a um feminino. O rosto e a maquiagem são focos de atenção constante. Todo o problema com os pelos (símbolo de masculinidade para elas e, ao que parece, para toda uma cultura), especialmente a barba visando uma completa mudança para uma “pele de pêssego”. Outro quesito vital é a mudança da voz, entendida como fundamental para ser uma travesti. As marcas no corpo deixadas pelas cirurgias e outras intervenções são também descritas pelo autor como algo bastante comum, pois traduzem o investimento delas no sentido da transformação. A construção do feminino pede, obviamente, roupas insinuantes e sapatos que constituem importante fator na montação ou montagem [o ato de vestir-se “de mulher”].
 
De fundamental importância são os tratamentos com hormônios que proporcionarão profundas modificações corporais, muitas vezes iniciados na puberdade. E o silicone que produz um corpo com curvas, absolutamente desejáveis pelas travestis e pelos seus clientes. Não é incomum as travestis terem muitos problemas com a aplicação do produto, feita tantas vezes por pessoas não qualificadas para tal pratica. A cirurgia plástica é desejada para modificar nariz, aumentar lábios ou tamanho dos olhos. 
 
Nas travestis a mudança de sexo, segundo alguns destes estudos, não é especialmente desejada, pois sabem a importância do pênis no negócio da prostituição. É, ao que parece, assunto freqüente entre elas a idéia de uma mudança de sexo. No estudo de Silva (1996:63) feito com travestis no Rio de Janeiro, surge uma observação interessante sobre o tema: a mudança de sexo seria um recurso a mais para reiterar o desejo de ser uma travesti, mas efetivamente acontece com pouca freqüência. 
 
No estudo de Bento (2006) sobre sexualidade e gênero na experiência transexual, a pesquisadora constata que “os/as transexuais não conseguiram descolar-se do destino biológico, uma vez que o gênero que significa ‘transexual’ será o de nascimento”.  Segundo a estudiosa, a nomenclatura oficial utilizada para definir transexualismo diz respeito aquelas “pessoas que vivem uma contradição entre corpo e subjetividade. O ‘ismo’ é denotativo de condutas sexualmente perversas, como por exemplo, homossexualismo”.
 
A lógica da patologização está evidente na vida destes transexuais que passarão por uma impressionante via crucis até conseguirem a cirurgia para mudança de sexo, quando a intervenção surge como uma possibilidade. Mesmo estudo, Bento escreve:
“O saber médico, ao dizer transexual, está citando uma concepção muito específica do que seja um/a transexual. Esse saber médico apaga a legitimidade da pluralidade, uma vez que põe em funcionamento um conjunto de regras consubstanciado nos protocolos, que visa encontrar o/a ‘verdadeiro/a transexual’. O ato de nomear o sujeito de transexual implica pressuposições e suposições sobre atos apropriados e os não-apropriados que os/as transexuais devem atualizar em suas práticas”. (pg.46)
 
Bento irá apontar, inclusive, a enorme pluralidade situada sobre o rótulo de transexual (pg. 229), frequentemente desprezada pelo saber médico e psicológico. Assim, depois “de anos freqüentando sessões de terapia, fazendo exames rotineiros, submetendo-se a vários testes de personalidade, a sessões de fonoterapia, ainda paira uma dúvida nos membros da equipe: ‘Será que ele/a é um transexual de verdade? ’ Na produção do diagnóstico, o único mapa seguro que orienta a movimentação dos membros da equipe são as verdades aceitas socialmente para se definir ‘um homem/uma mulher de verdade’. (pg. 230).
 
A tal saída do armário (Sedgwick, 2007) para transexuais é algo imposto por um desejo, mas também estampado em um corpo que teima em não se adaptar a um mundo das normas no que diz respeito aos gêneros, o que difere, tantas vezes, do processo suportado por homossexuais que utilizam de todo tipo de artimanhas para se proteger.
 
O preconceito contra as travestis tem inúmeras facetas, como vimos, mas com certeza está assentado em algo básico, primordial: a de romper com algo “natural” como o sexo biológico “se autorizando” um gênero que difere daquele “dado pela natureza”. Neste sentido, me pergunto se esta “atitude” não seria algo mais violento ainda para o padrão heteronormativo e geraria ainda mais preconceitos do que aquele gerado contra os/as transexuais. O desejo de mudança de gênero, ou se com/formar em um ou outro gênero pode trazer algo de apaziguador para uma sociedade heteronormativa, embora isso em nada diminua o sofrimento do/a transexual, nem a crueldade constante impingida contra suas aparências, seus plurimorfismos. As travestis, deste ponto de vista, seriam mais abusadas: como ousam “romper com a natureza” aderindo irritantemente a um gênero sem abrir mão inteiramente de outro?
 
AS TEORIAS DA DIFERENÇA
 
Todo o pensamento de Michel Foucault é marcado pelo horror à ordem unida, aos gestos disciplinados, às atitudes seriadas, à igualdade que oprime, cada vez mais presente a partir de Vigiar e punir (2000). Incomodava/ incomoda a idéia da unidade. A busca é pela singularidade, pela diferença. No dizer de Sousa Filho (2008) porque “todo o seu pensamento foi orientado pela concepção radicalmente negadora da tentação do uno”. O interesse do filósofo pelas “morais” greco-romana antiga deve-se a não “tentativa de imposição de uma moral única a todos, mas produção de “morais” de grupo, orientadas para éticas e estilizações da vida, para estilos de grupo e para grupos”. Na continuidade de sua escrita, o mesmo autor dirá que em Foucault “era a liberdade que olhava o poder”, cuidando, deste modo, as novas e elaboradas sujeições. 
 
No dizer de Machado (1984), que sintetiza o pensamento do filósofo na Introdução de Microfisica do Poder:
“A ação sobre o corpo, o adestramento do gesto, a regulação do comportamento, a normalização do prazer, a interpretação do discurso, com o objetivo de separar, comparar, distribuir, avaliar, hierarquizar, tudo isso faz com que apareça pela primeira vez na história esta figura singular, individualizada - o homem - como produção do poder”. 
 
E para Foucault todo o saber tem sua gênese nas relações de poder: as verdades de um tempo e um lugar são aí engendradas e não fora destas relações. 
 
O dedo na ferida foi colocado sem cerimônia no seminal História da Sexualidade I A vontade de saber publicado na França em 1976:
“O poder funciona como um mecanismo de apelação, atrai, extrai essas estranhezas pelas quais se desvela. O prazer se difunde através do poder cerceador e este fixa o prazer que acaba de se desvendar. O exame médico, a investigação psiquiátrica, o relatório pedagógico e os controles familiares podem, muito bem, ter como objetivo global e aparente dizer não a todas as sexualidades errantes ou improdutivas, mas, na realidade, funcionam como mecanismo de dupla incitação: prazer e poder. Prazer em exercer um poder que questiona, fiscaliza, espreita, espia, investiga, apalpa, revela; e por outro lado, prazer que se abrasa por ter que escapar a esse poder, fugir-lhe, engana-lo ou travesti-lo”. (pg. 45)
 
Trata-se, pois, do que Foucault chama de uma “ortopedia discursiva”: discurso aqui, não diz respeito, simplesmente a um texto, mas ao próprio campo da constituição do conhecimento. Ou, na compreensão foucaultiana, do poder.
 
Focando ainda a questão da sexualidade e seu entrelaçamento com o saber-poder escreve Foucault:
(...) “é através do isolamento, da intensificação e da consolidação das sexualidades periféricas que as relações do poder com o sexo e o prazer se ramificam e multiplicam, medem o corpo e penetram nas condutas. E, nesse avanço dos poderes, fixam-se sexualidades disseminadas, rotuladas segundo uma idade, um lugar, um gosto, um tipo de prática”. E no mesmo parágrafo, um pouco adiante: (...) “inumeráveis lucros econômicos que, por intermédio da medicina, da psiquiatria, da prostituição e da pornografia, vincularam-se ao mesmo tempo a essa concentração analítica do prazer e essa majoração do poder que o controla. Prazer e poder não se anulam; não se voltam um contra o outro; seguem-se, entrelaçam-se e se relançam” (pg.48).
 
As sexualidades divergentes devem ser reguladas por “uma rede sutil de discursos, saberes, prazeres e poderes; não se trata de um movimento obstinado em afastar o sexo selvagem para alguma região obscura e inacessível, mas, pelo contrário, de processos que o disseminam na superfície das coisas e dos corpos, que o excitam, manifestam-no, fazem-no falar, implantam-no no real e lhe ordenam dizer a verdade: todo um cintilar visível do sexual refletido na multiplicidade dos discursos, na obstinação dos poderes e na conjunção do saber com o prazer”. (pg. 70-1).
 
Foucault foca o material, as práticas, os discursos, as práticas discursivas. A sexualidade, por sua importância, adquire contornos inusitados: (...) “estamos em uma sociedade do ‘sexo’, ou melhor, ‘de sexualidade’: os mecanismos do poder se dirigem ao corpo, à vida, ao que a faz proliferar, ao que reforça a espécie, seu vigor, sua capacidade de dominar, ou sua aptidão para ser utilizada”. (pg. 138)
 
No curso ministrado no Collège de France em l974-1975, período imediatamente anterior à publicação do livro acima citado e cujas aulas são transcritas em Os anormais, a questão da sexualidade aparece associada ao tema dos “monstros”, assunto que atravessa o curso em foco. Deve-se mencionar, no entanto, que estes cursos nada tinham em comum com os livros publicados, embora a partir dos anos 70 tenha se dedicado à genealogia das relações poder-saber.  
 
Nesta genealogia encontra na segunda metade do século XVII a figura do “monstro sexual” quando “a figura do individuo monstruoso e a figura do desviante sexual [começam a] se comunicarem”. (pg. 76). Tempo no qual a masturbação, por exemplo, passa a ser controlada de modo duro e isto irá perdurar até o inicio do século XIX. Mas o monstro sexual, daquele momento da história, diz respeito ao misto dos dois sexos: “quem é ao mesmo tempo homem e mulher é um monstro” (pg. 79). O ato de esquadrinhar o corpo e o desejo, de separar e catalogar práticas, de ensinar e indicar, de falar do que é transgressivo.
 
A monstruosidade está ligada uma transgressão. Assim, escreve:
“Transgressão (...) dos limites naturais, transgressão das classificações, transgressão do quadro, transgressão da lei como quadro” (pg.79). E pouco adiante acrescenta: “... a desordem da natureza abala a ordem jurídica, e aí aparece o monstro”. E ainda: “É igualmente monstro o ser que tem dois sexos e, por conseguinte, que não se sabe se deve ser tratado como menino ou como menina; se se deve ou não autoriza-lo a se casar e com quem; se pode ser titular de benefícios eclesiásticos; se pode receber ordens religiosas, etc.” (pg. 81-2).
 
O caráter seminal do pensamento foucaultiano fortemente agressivo e dispersivo, pois feito de temas não tão desenvolvidos e, no entanto, intensos e carregados de significados, faz lastro para o que viria a ser desenvolvido pela chamada teoria queer. Esta, por sua vez, não chega a ser uma escola, mas autores e, mais propriamente, autoras que se identificam com a questão dos gêneros e os fios temáticos que a perpassam. Aí se situam com muito ou pouco conflitos entre elas.
 
O ato de nomear um corpo como “menina” ou “menino” instala um processo que deve seguir em determinada direção (Louro, 2008). Butler, em seus escritos, argumenta que este ato visa basicamente reiterar a sequência sexo-gênero-sexualidade dando-lhe um caráter pré-cultural, imutável, a-histórico e binário. Escreve ela:
“A norma confere realidade ativamente; de fato, a norma se constitui como tal apenas em virtude da repetição de seu poder de conferir a realidade” (2006:83) [Tradução minha]
 
É preciso, portanto, repetir esta verdade, reiterando-a sempre que possível.Butler, em um prefácio escrito (2007a) dez anos após o lançamento de Problemas de Gênero (Gender and Trouble), anteriormente citado está anotado:
“Na medida em que as normas de gênero (dimorfismo ideal, complementaridade heterossexual dos corpos, ideais e domínio da masculinidade e da feminilidade adequadas e inadequadas, muitos dos quais estão respaldadas por códigos raciais de pureza contra a mestiçagem) determinam o que é inteligivelmente humano e o que não, o que se considera ‘real’ e o que não, estabelecem o campo ontológico em que se pode atribuir aos corpos expressão legítima”. O objetivo da obra, no olhar da própria autora, é indicar “a violência que exercem as normas do gênero” (págs. 28-9) [Tradução minha].
 
O conceito de performatividade é emprestado por Butler da lingüística e aparece, com freqüência, nos seus escritos. A importância deste conceito diz respeito justamente à idéia de reiteração daquilo que constata: continuada e repetitivamente um corpo é nomeado, construído. Compulsoriamente a heterossexualidade é colocada como norma, mais que escolha, determinando o que é “correto”, “normal”, “adequado”, “ajustado” em contraposição ao que é “abjeto”, “anormal”, “desajustado”, “louco”, “marginal”. Nas palavras de Butler (2008):
(...) “a compreensão da identificação como fantasia ou incorporação posta em ato, é claro que essa coerência é desejada, anelada, idealizada, e que essa idealização é um efeito da significação corporal. Em outras palavras, atos, gestos e desejo produzem o efeito de um núcleo ou substância interna, mas o produzem na superfície do corpo, por meio do jogo de ausências significantes, que sugerem, mas nunca revelam, o principio da identidade como causa. Esses atos, gestos e atuações, entendidos em termos gerais, são perfomativos, no sentido de que a essência ou identidade que por outro lado pretendem expressar são fabricações manufaturadas e sustentadas por signos corpóreos e outros meios discursivos. O fato de o corpo gênero ser marcado pelo performativo sugere que ele não tem status ontológico separado dos vários atos que constituem sua realidade. Isso também sugere que, se a realidade é fabricada com uma essência interna, essa própria interioridade é efeito e função de um discurso decididamente social e público, da regulação pública da fantasia pela política da superfície do corpo, do controle da fronteira de gênero que diferencia interno de externo e, assim, institui a ‘integridade’ do sujeito” (págs.194-5)
 
A função é claramente vigiar as fronteiras, reiterando a sexualidade legítima. Neste ponto, a importância da travesti e das/dos transexuais na obra de Butler. Todo o universo trans traria o embaralhamento de códigos, foco claro de resistência ao poder impingido pela heteronormatividade: como suportar estes seres que se inventam, que “fazem” corpos, mentem e driblam o tempo todo o discurso médico e psicológico? Estabelecem papéis de fronteira ou papéis transgressivos de gênero, concluo eu.
A questão da resistência ao poder, em que lugar e em que tempo é possível produzir dispositivos para a transformação destas relações é praticamente uma constante nos textos de Foucault.  
 
Travestis na paródia da mulher, de uma mulher, de um suposto gênero feminino discutem o tempo todo a heteronormatividade na medida em que a questionam, enganam, complicam suas leis. Para não deixar dúvida, se for preciso, apresentam o pênis. A resistência, assim, estaria na confusão, na ruptura com o alinhamento sexo-gênero-orientação sexual, mas não parece acreditar que isto seja possível fora das normas e sim, produzindo cenas que desarticulam a suposta coerência que tudo sabe e tudo abrange.
 
E, de novo Butler (2007b):
“Na verdade, a construção do gênero atua através de meios excludentes, de forma que o humano não é apenas produzido sobre e contra o inumano, mas através de um conjunto de exclusões, de apagamentos radicais, os quais, estritamente falando, recusam a possibilidade de articulação cultural. Portanto, não é suficiente afirmar que os seres humanos são construídos, pois a construção do humano é uma operação diferencial que produz o mais e o menos “humano”, o inumano, o humanamente impensável” (pág. 161).
 
No entendimento de Foucault (1985) “lá onde há poder há resistência e, no entanto (ou melhor, por isso mesmo) esta nunca se encontra em posição de exterioridade em relação ao poder”. (pág. 91). E acrescenta um pouco adiante: “Grandes rupturas radicais, divisões binárias e maciças? Às vezes. É mais comum, entretanto, serem pontos de resistências móveis e transitórios, que introduzem nas sociedades clivagens que se deslocam, rompem unidades e suscitam reagrupamentos, percorrem os próprios indivíduos, recortando-os e os remodelando, traçando neles, em seus corpos e almas, regiões irredutíveis”. (pág. 92)
 
PAPÉIS E PODERES
 
Os papéis limitam, organizam, territorializam as ações, determinando o que podem e o que não podem mulheres, homens, gays, lésbicas, travestis, transexuais. E guardas noturno, chefes de gabinete, pilotos, padres, prostitutas... Papéis não necessitam da imposição de alguém de fora: os indivíduos tomam o papel como um modo de ter um lugar em uma sociedade. E cuidam para que os outros façam movimentos parecidos ou complementares. Os graus de liberdade auferidos para todos estes movimentos, inclusive para as transgressões: quem pode, o que pode, onde pode, o que pode fazer, o que pertence à esfera publica ou a esfera privada, os trâmites entre uma e outra. 
 
Se entendermos os papéis na ótica foucaultiana, os papéis revelam por si, no próprio desempenho algo de impositivo. O homem que sou pressupõe uma mulher complementar e vice-versa. O heterossexual se diferencia de modo marcado frente ao homossexual que o outro é. Os papéis, como quer Moreno (1978), traduzem uma cultura, mas, junto disso, modos de exercer poderes. Como se cada papel trouxesse um manual para consigo mesmo e para com o outro, devidamente disponibilizado nas nossas sociedades, inevitavelmente, de controle. Para que o controle seja efetivo, é preciso repetir padrões, mas talvez disfarçá-los, apresenta-los de outros modos. Em outras palavras, o papel é poder, está autorizado pela cultura. 
 
O desmanche está em quebrar as binariedades mantidas pela cultura heteronormativa no que diz respeito aos gêneros. Sabemos que entre o heterossexual e o homossexual, por exemplo, pode haver infindáveis papéis que não se cristalizam. Ou como diz Moreno (1992 v.1 p.180)  são tantas vezes “irrepresentáveis”. Por quê? Como compreender o bissexual que “prefere” fazer sexo com homens e mulheres. Ou os poli sexuais, para quem não importam quais parceiros ou parceiras, mas sim a prática em si. Ou heterossexuais que apenas se vestem com a roupa do sexo oposto e continuam preferindo o sexo oposto. 
 
Retomando Louro (2008), que se utiliza do pensamento desconstrucionista de Derrida, assim escreve:
“Conforme Derrida, a lógica ocidental opera, tradicionalmente, através de binarismos: esse é um pensamento que elege e fixa uma idéia, uma entidade ou um sujeito como fundante ou como central, determinando, a partir desse lugar, a posição do “outro”, o seu oposto subordinado. O termo inicial é compreendido sempre como superior, enquanto o outro é o seu derivado, inferior. Derrida afirma que essa lógica poderia ser abalada através de um processo desconstrutivo que estrategicamente revertesse, desestabilizasse e desordenasse esses pares. Desconstruir um discurso implicaria minar, escavar, perturbar e subverter os termos que afirma e sobre os quais o próprio discurso se afirma.”. (pág. 42)
 
Não é exatamente assim que são constituídos os papéis em nossa sociedade? É muito “natural” escrever, por exemplo, homem/mulher, branco/negro, heterossexual/homossexual, mas também masculino/feminino, forte/fraco. Ou ainda sexo/amor ou amor/sexo. Não me parece, no entanto, que se, porventura, houvesse uma revolução e os pólos se modificassem, sem que fossem desconstruidas as relações de poder aí implicadas, haveria qualquer mudança efetivamente transformadora e critica. 
 
Se vivemos em uma sociedade pós-identitária, na qual as identidades naturalizadas e essencializadas necessitam da desconstrução para que possamos compreender toda forma de poder institucionalizada, invisível, inconsciente, talvez o conceito de papel possa ser discutido como transmissor operante deste poder. Sua própria existência denota força ou fraqueza, em jogos de repetição infinitos. Desfazer a serialidade opressora e contínua na repetição do papel colado no corpo. Com ou sem o nosso consentimento. 
 
A ânsia destes papéis sociais na busca de uma superfície, questão já levantada há mais de 20 anos por Naffah (1989), em um artigo chamado Os papéis e os corpos, assentado sobre o pensamento de Deleuze, materializa ainda mais os tais aspectos sociais e individuais de que fala Moreno. Os papéis tomam o formato do corpo, seu desempenho. Vincam assim o corpo que por sua vez anima o papel. Os papéis deixam marcas, no sentido de impor registros sobre a superfície da pele, dos músculos. Em cada dobra cutânea, uma relação. Nas rugas, os poderes, as tensões, os sofrimentos, mas também a alegria, a felicidade. Papéis que pesam, que oprimem. Papéis ambíguos, outros libertadores.
 
Na topografia dos corpos em uma sociedade específica, no vestir e desvestir de papéis temos uma enorme complexidade: aqueles mais ao centro, outros mais periféricos, outros de fronteira. Um enorme jogo de interesses os alinhavam, forçando espaçamentos, continuidade ou descontinuidade, simulação ou dissimulação constantes, calcificação ou plasticidade. A realidade da experiência social pressupõe um imaginário que a atravessa: a organização, assim, não é dada necessariamente pela vivência publica, mas por instâncias subjetivas e suficientemente fortes que indicam movimentos e cortes, términos, começos e recomeços. E, mais possivelmente, em um modo de funcionamento mais para o exterior ou mais para o interior de acordo com cada vínculo e em cada jogo de poder. Ou ainda a troca de papéis que me lança no diferentemente outro, agora já fora do meu corpo, encarnando o impressionantemente sabido, mas que só agora se sabe.
 
Os papéis apresentam foras e dentros, são mais ou menos verossímeis em seus desempenhos, trazem estranheza ou conforto. Pontos de conexões que movimentam uma sociedade, pois mediam desejos, influenciando, repetindo. Conexões transformadas indicam pequenas mudanças ou, ao menos, resistências dos poderes que pulsam em mim, em nós. 
 
Travestis e transexuais são autores de seus corpos, na medida em que os constroem. Facilmente pode-se argumentar que apenas obedecem à heteronormatividade vigente, o que pode ser verdade algumas vezes. Noutras tantas elas/eles se arriscam na construção de um corpo e uma subjetividade, produzem histórias e narrativas que sustentam existências que, muito provavelmente, de outro modo estariam perdidas. 
 
 
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