Devanir Merengué

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PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN

(We need to talk about Kevin, Reino Unido/ USA, dirigido por Lynne Ramsay, 2011).                                                                                                                   

O trágico pode ser entendido como o terror desencadeado por  uma sucessão de cenas que empurram inevitavelmente para a morte e suas inevitáveis implicações para os que continuam vivos. Nada, nenhuma estratégia parece evitar o final já previsto desde o inicio dos acontecimentos. A intensidade, a força atordoam os personagens que parecem (p)actuar, como fantoches,  para o desfecho  sabido.

No filme Precisamos falar sobre o Kevin o espectador fica tão aflito quanto Eva, a mãe de Kevin. A identificação não deixa de ser surpreendente. Eva tenta, entre a completa falta de habilidade para ser mãe e o crescente pânico, compreender o filho e sua perversa estranheza. Encarnar o Mal resulta no extermínio de outros humanos aos 16 anos.

O vai e vem da narrativa no tempo e espaço impõe um clima esquizoide no qual o espectador é submetido acompanhando Eva. Qual a razão de Kevin? E corremos o risco de nunca compreender ou entender apenas parcialmente estas razões. Sentimentos, possibilidades, armadilhas se multiplicam apanhando Eva e o espectador: a beleza das imagens se mesclam de pleno horror.

Podemos sempre e no entanto, arriscar compreensões parciais que desafiam e aliviam nossa angustia momentaneamente, sabendo que  o tudo-explicar apenas e tão somente indica nossa impotência frente ao trágico. A interpretação, como talvez devêssemos saber, diz mais de quem fala do que de quem ou do que é falado.

Ainda assim e arriscando: Eva, a viajante e escritora de guias de viagem, não quer um filho. Não é esta a sua viagem. O desejo está, ao que parece, em viajar, conhecer lugares distantes e exóticos. O nascimento de Kevin, no que sugerem as imagens, agrada ao marido, mas traz para Eva mais que um problema. Traz um mistério, um enigma, uma charada que exige ser decifrado ou...  Mas, como assim, a maternidade não é um instinto?

Trava-se entre mãe e filho uma batalha, na qual perder mais e mais os submetem a um frenético jogo de poder. Poder que gera poder e muito aprisionamento não importa se estando no comando ou sendo comandado. Kevin quer a mãe só para si. E como todo tirano impõe o esvaziamento da vontade, o mal estar da culpa que dilacera e prende.

Eva busca a(s?) razão (ões?) da tragédia em Kevin. Talvez pudesse ganhar algum conhecimento se olhasse entre  eles, dentro dela. Veria um intricado jogo de espelhos desfavorável para todos. Nele-entre-Nela. Ele-nela, ela-nele. A gravidez determina em grande parte a vida de uma mulher e de um casal. Quando escolhida pressupomos sacrifícios não contabilizados. Quando não escolhida a mãe (e também o pai) necessita refazer o trajeto, se rearranjar, se adaptar. Muitas vezes isto se resolve por uma saída nas quais os danos são minimizados focando os ganhos que uma criança traz. Noutras vezes, esta saída não é viabilizada, como no caso de Eva.

Vemos, desse modo, uma mãe aturdida, impotente. Uma criança que olha como que desafiando e denunciando o lastimável desempenho. A insegurança se instala mais e mais. Cresce o nível de violência do filho na medida em que cresce seu poder de agir. No reverso do amor, é um filho que odeia cada vez mais a mãe, perversamente necessitando vê-la sofrer.

Objetos e substâncias vermelhas insistentemente exibidas, além do evidente indício do sangue derramado, falam da metáfora dos laços de sangue que culturalmente indicam a necessidade do reconhecimento dos vínculos familiares. Com frequência laços de sangue são confundidos com a obrigação social de afeto entre membros de uma mesma família.

O vermelho está logo nas primeiras cenas da película, na Tomatina, festa espanhola de curta duração que consiste em lançar tomates uns nos outros. O caráter lúdico e a transgressão consentida da festa, mal esconde a agressividade evidente. Teremos muitas geleias vermelhas, pichação em vermelho e alimentos quebrados, lápis de cor destruídos. E cada vez mais amedrontador. 

Um pai que nega toda e qualquer dificuldade não enxergando o drama de Eva e nem o drama do filho. Faz um movimento absurdamente compensatório, mimando e não enxergando a fratura (cada vez mais) exposta. Deixa, desse modo, Eva bastante solitária na sua tentativa desesperada de acertar e acertar como mãe. E Eva erra, erra cada vez mais de um modo pior.

Os personagens, evidentemente, não estão soltos. Respondem as tramas sociais, aos próprios desejos, tentando, de algum, modo dar saídas ao que mais pede. Eva, por razões não explicitas, abre mão de Nova York, da vida de viajante e de escritora para ser mãe em uma bela casa da periferia. Kevin abre mão da liberdade-de-ser  ao aprisionar a mãe sob o medo e a culpa.

O filme, em última instância, parece dizer que não há um sentido para a vida, nenhum sentido a priori, mas fios soltos a serem tecidos. Ou um imenso vazio a ser preenchido. E neste vazio se debate a humanidade. A arte tem a (in)grata função de nos dizer isso: esqueça os modelos e invente... O preço é muito alto quando nós, humanos, nos esquecemos desta premissa vital. Eva jamais poderia ter traído esta necessidade.

A arte tem um compromisso com a vida, mas não com as infinitas convenções sociais, suas amarras e controles. A arte não imita a vida, nem se dispõe a aconselhar a humanidade. E se arte imita a vida ela, muito provavelmente, não é arte. A busca por algo mais incisivo, menos hipócrita, que ultrapasse as muitas cascas da cultura é sua intenção. E os artistas são estes, os que não fazem o jogo social de que a vida é apenas isso aí. Os artistas não se conformam com a naturalização das mazelas humanas, apontando para as constantes armadilhas sociais a que estamos sujeitados.

 

 

A sociedade que a cerca pune com violência sua resistente passividade , não atentando para o opressivo jogo socialmente imposto que determina funções e papéis aos humanos. Kevin precisa de uma mãe que o enxergue. Mas Eva se abandonou em algum ponto e já não consegue ver. Não é mais agente, apenas um nada que assistirá um outro nada que com o passar do tempo já nem saberá porque matou.

E o nada do Esquecimento cobrirá tudo porque nós, humanos,  não suportamos estas memórias tão vermelhas...