Devanir Merengué

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Devanir Merengué

CRIADOS EM CATIVEIRO

Não aconteceu de uma hora para outra, mas aos poucos: a rua já não era mais o espaço democrático onde crianças e adolescentes podiam aprender e a desaprender algumas coisas da vida.

Sim, pode parecer estranho para um jovem urbano vivendo nas grandes e médias cidades brasileiras de hoje ouvir que a rua era um lugar onde se jogava bola, bolinha de gude, soltava pipa. Também lá se aprendia a convivência com os iguais e os diferentes em praticas nem sempre honestas, nem sempre bonitas. Mas lá se aprendia o valor da amizade, a competição justa e a injusta também. A rua apresentava o mundo para a menina e o menino, em um espaço nitidamente diferente da casa.

A casa era o lugar do afeto ou da ausência dele. De aprender a ter disciplina, a ser honesto. Ou o contrário disso. A rua funcionava como contraponto: lá podíamos ver o outro lado, os valores e hábitos de outras famílias, melhores ou piores que a nossa. Certamente a rua era o lugar de conviver com a diferença.

O aprendizado da sexualidade, tantas e inúmeras vezes, acontecia na rua. Era lá que meninos e meninas se interessavam pelo outro sexo. Às vezes, em jogos com o mesmo sexo. Muitos adultos reclamam disso: “Tive que aprender tudo na rua!”. Mas, pergunto eu, não era algo mais próximo do seria a vida? O aprendizado doméstico não tem sempre uma artificialidade pedagógica, atravessado de moral e bons costumes?

A partir de um certo momento da história brasileira a rua, a praça, o parque passaram a ser, definitivamente, lugares perigosos. Qualquer pai ou mãe que tivessem algum juízo, jamais deixariam seus filhos perambularem por lá, uns lugares piores que outros e ainda mais em certos horários... O que era noticia esparsa associada à violência, passou a ser lugar comum. A idéia da droga vendida como se vendia pirulitos, passou de simples paranóia, a fato. A violência e a droga se transformaram em fenômenos absolutamente cotidianos.

A criação de filhos em cativeiro passou a ser a tônica na classe média. Muito menos para os pobres, pois a delimitação entre casa e rua em áreas mais pobres nunca foi algo muito nítido, para o bem ou para o mal. A bala perdida é mais habitual para os pobres. A privacidade não tem como ser um valor, pois muitos precisam habitar mesmos espaços. Em compensação, com a ausência do estado e da policia protegendo os seres humanos, mais e mais foram necessários arranjos domésticos como medida de sobrevivência. Foi preciso se proteger da rua e, ao mesmo tempo, não havia como se dissociar dela, pois invadia a casa, o quintal. Ali foi e é o único lugar para se criar filhos.

Na classe média, a distância entre casa e rua é muito mais aparente. Alguma facilidade econômica permite a construção de casas com melhores condições de abrigo e conforto. As possibilidades ficam ampliadas no que tange as situações de privacidade, da separação de papéis (papel de filho, de estudante, na escola de línguas ou de ballet, de leitor...) que estão associadas a diversos contextos (sala de jantar, o quarto de dormir, às vezes, sala de música, campo de tênis...). Estou falando evidente de situações ideais, mas evidentemente, possíveis. E até desejáveis para qualquer ser humano.

Mas aí entra a idéia do cativeiro.

Animais criados em cativeiro são bichos que, com freqüência, não são capazes de sobreviverem sozinhos da mata, na selva, por alguma razão. Por estarem em extinção, por serem presas fáceis de outros animais ou de caçadores, por estarem machucados, etc. Eles necessitariam de algum tipo de proteção, já que não teriam condições de “cuidarem” de si próprios. Assim, são criados com comida, água, cuidados veterinários, estimulados ao acasalamento, sendo que, muitas vezes, seus filhotes recebem a mesma atenção.

Pois bem.. As mudanças sociais (com evidentes implicações econômicas, culturais, comportamentais, de mentalidade, etc.) apontadas acima produziram um novo modo de pensar e criar filhos. O tempo que filhos e pais convivem dentro da casa passou a ser maior e não necessariamente por escolha. Namorados e namoradas passaram a freqüentar o mesmo espaço e inclusive dormir com filhos e filhas em seus quartos. Os pais levam e trazem filhas e filhas de muitos lugares. A obrigação em proteger os filhos passou a ser quase obsessão dos pais. Proteger de tudo: além da violência e das drogas, da AIDS, da competitividade extrema, de valores entendidos como distorcidos, etc. Os rebentos recebem o mundo através de uma tela. Sabem ‘tudo’ dele: da política, da fome, das desgraças todas... mas o mundo fica ‘lá fora’ e chega via TV, internet, telas e mais telas. E simultaneamente ao acontecimento....

Não são filhos alienados, muito pelo contrário. Frequentemente, sabem coisas do mundo. Mas não tem qualquer experiência dele. O mundo é quase ficção e sempre visto pela janela do carro, da van que leva os alunos, através dos professores que contam da ‘vida lá fora’, dos dramas da empregada da casa que vive, essa sim!, no mundo real.

A idéia do ‘limite’ apregoada por psicólogos e pedagogos contemporâneos faz sentido, pois não é mais a realidade que traz o limite usual do mundo. A realidade é dura, traz um enorme desconforto quase sempre. O mundo não exatamente um lugar fácil. O limite, desse modo, precisa acontecer o tempo todo pelos pais e pelos professores para os filhos da classe média.

A virtualidade é uma experiência muito mais efetiva do que aquela que acontece nos jogos eletrônicos: são vivencias que não machucam, não provocam emoções reais, a dor não tem caráter transformador. Roupa, comida, roupa lavada, proteção física, econômica até os... quantos anos?

Quais as implicações para o mundo das gerações criadas em cativeiro?