Devanir Merengué

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O TEMPO E O FORA DO TEMPO

                                    Ter o infinito na palma da mão
                                        E a eternidade em uma hora
                                                                    William Blake

 
 
Quando criança encontrei um relógio antigo, provavelmente espanhol, em uma caixa de sapatos. Era um relógio de bolso com corrente, dourado. Mesmo dando corda o relógio não funcionava. Ali o tempo estava parado fazia anos. Na minha infância, o passado era algo pouco sabido, o presente imperceptível e o futuro, impensável. Meu avô contava histórias da Espanha, eu brincava incansavelmente com minha irmã e no horizonte da fazenda os carros iam e vinham do Rio de Janeiro, imaginava eu, lugar aonde, um dia, eu iria. Houve ainda uma morte que mudaria radicalmente minha vida.
 
Descobri um dia a existência e dentro dela, a morte.
 
Os relógios mortos não comandavam o tempo, mas havia dia e noite, sol e lua, plantios e colheitas, animais que nascem e animais que morrem. O tempo era muito mais complexo e se fazia presente em tudo.
                                                            * * *
 
Chamamos banalmente de tempo o modo como a vida se apresenta ao individuo: quando nasceu e quando morreu, os acontecimentos, os determinismos e os acasos, as aberturas e os desastres, os dias e os anos, as horas e os minutos. Lastimamos os que viveram pouco e nos alegramos com as pessoas amadas que ainda vivem e por muito tempo. Reclamamos da falta de tempo e do tempo que ‘passa rápido demais’. Sofremos com o tempo perdido, os amores desandados, o dinheiro desperdiçado no decorrer dos tempos. Pressupomos ‘ganhar tempo’ com os aparelhos eletrônicos, com informações que atravessam o planeta em segundos, com os carros velozes, com os fornos micro ondas, com o fast food e tantas outras possibilidades rápidas.
 
O tempo se imiscui inexoravelmente nas biografias, nos grupos, nas instituições, nas nações, nas economias, nas histórias. O tempo impõe as rachaduras, a memória. Mas talvez não. Podemos pensar em um tempo mais passivo que se deixa levar por seres humanos que impõem, esculpem, manejam a vida. Ou ainda em uma outra versão, na qual humanos e não humanos estejam em profundo embate com o tempo, em constante tensão. São modelos de possibilidades que, frequentemente, dizem pouco da experiência humana muito mais complexa e cheia de nuances.
 
De qualquer modo e seja como for, a temporalidade vinca a cultura ou é marcada pela cultura, perpassando a experiência humana como elemento constituinte, essencial e definitivo.
 
 
 
 
 
O Tempo
 
Thomas Mann (2003) no belo romance escrito em 1922, Morte em Veneza, descreve como o apaixonado, já velho, busca resgatar o tempo para se apresentar frente ao belo adolescente amado, símbolo da juventude dionisíaca:
 
Como qualquer apaixonado, desejava agradar e sentia o amargo receio de que isso não fosse possível. Acrescentou ao seu traje detalhe de efeito jovial, começou a usar pedras preciosas e perfumes, perdia varias horas do dia com sua toalete e vinha para a mesa enfeitado, excitado e tenso. Em face da doce juventude que suscitava esse esmero, seu corpo envelhecido o repugnava, mergulhava em vergonha e desespero ao ver seu cabelo grisalho, os traços marcados no rosto.
 
Não temos aí, literariamente disposto, o drama humano que se constitui da busca pela vida que escapa tragicamente? De um lado, o homem apaixonado pelo belo jovem, mas no ocaso da existência, e de outro, o jovem que se exibe na intensidade do mar, em um verão que se esvai, na certeza que nada sabe e talvez na suposição de que tudo pode.
 
A pós-modernidade tem se caracterizado pela vertigem, pela voracidade na experiência com o tempo. As novas tecnologias impõem aos seres humanos novas escalas: as distâncias e os lugares buscam uma simultaneidade. É possível diminuir o tempo de modo absoluto ao passar conversar com para alguém que se encontre na Austrália tendo resposta imediata ou ‘entrar’ em um simulacro de um museu russo na tela do computador.
 
Como essa experiência sensível interfere na vida humana? É evidente que a tentativa de manipular o tempo, traz aos seres humanos um sentimento forte de onipotência. Quem já não sentiu isso, ao ver um amigo que more no outro lado do mundo na tela do computador, conversando no exato momento, não importando se aqui é dia e lá é noite? Quanto tempo seria preciso para essa conversa ocorresse muito pouco tempo atrás? A onipotência fica aumentada a cada vez que nos conectamos com maquinas que, por serem poderosas, trazem uma inebriante sensação de mais força.
 
No cinema é possível parar o tempo, descontinuar o tempo, acelerar o tempo. É possível ‘fazer’ uma planta crescer, uma fruta apodrecer e o dia chegar. Nas imagens, os mortos ressuscitam e os dias ficam lentos ou se passam muito rapidamente. A fotografia congela o tempo em imagens belas ou horrendas e que Barthes diz ser a Morte (1984).
 
E mais impressionantemente: cada vez mais é possível que a manipulação para além das relações humanas ou através da imaginação, aconteça no próprio corpo. As mudanças plásticas que transformam rostos e corpos, ginásticas e regimes alimentares eficientíssimos e as possíveis manipulações que a genética acena para um futuro não tão distante assim descortinam um perturbador mundo novo.
 
A contemporaneidade pactua com o desejo humano de controle sobre aquilo que tem mais precioso - nossa curta existência. Idealmente podemos pensar que o uso do tempo deveria ter propósitos humanos. Mas, parece ser bastante enganoso esse ideal. O que é o vago ‘propósito humano’? Sabemos que os propósitos humanos podem ser impostos e manipulados com nossa plena anuência, bastando para isso que pactuemos com os mecanismos de sedução.
 
A noção de tempo é insistentemente repetida através das imagens: mulheres e homens eternamente jovens, a energia plena de seus corpos e seus carros, o produto de última geração conectado a esses corpos, os paraísos disseminados em telas, telas infinitas... fazendo com que o presente da propaganda seja um tempo sempre novo, mas fugaz.  
 
Aí começa a impotência, a inacessibilidade, a sensação estranha de um grande engodo. Se como deuses, podemos ter corpos exuberantes, se a cada vez mais podemos viver mais tempo, se a juventude pode ser comprada por aqueles que dispõem de dinheiro e tempo, por que mais e mais a insatisfação se instala?
 
Existe na contemporaneidade uma tentativa de transformar o tempo em algo linear, chapado: um presente que nunca se dá inteiramente e um futuro que nunca chega, mas é sempre anunciado. O tempo, no entanto, como não cansam de anunciar os artistas, os poetas e os filósofos é muito mais complexo: um presente repleto de passado, presente cheio de presente ou presente invadido de futuro. Passados e futuros que buscam determinações, futuros que buscam reescrever o passado e passado que insiste em prescrever o futuro, eternidades mínimas, infinitos ligeiros, momentos infindáveis.
 
 
A noção de Fora
 
É necessário, mesmo que de modo precário, compreender minimamente o conceito de Fora. Ele aparece na obra de Maurice Blanchot (1902-2003), sendo desdobrado posteriormente por Foucault (1926-1984) e Deleuze (1925-1995) como didaticamente compreende Levy (2003).
 
Blanchot fala de necessidade de diferenciar a linguagem cotidiana da linguagem literária. Diz-nos Levy falando do pensamento de Blanchot:
 
O Fora constitui, assim, uma espécie de experiência original, um começo de tudo. Colocar-se fora de si e fora do mundo é antes de mais nada inaugurar uma experiência em que as coisas não são ainda. (pág. 32)
 
Desconstruir o real para criar uma realidade fictícia, mas que não se desconecta do mundo. O Fora está justamente na possibilidade de recriar o mundo literariamente, produzindo resistência aos saberes constituídos. Desse modo, escreve Blanchot (2005):
 
O deserto ainda não é nem tempo, nem o espaço, mas um espaço sem lugar e um tempo sem engendramento. Nele, pode-se apenas errar, e o tempo que passa nada deixa atrás de si, é um tempo sem passado, sem presente, tempo de uma promessa que só é real no vazio do céu e na esterilidade de uma terra nua, onde o homem nunca está, mas está sempre fora. O deserto é o fora, onde não se pode permanecer, já que estar nele é sempre estar já estar fora...  (pág. 115)
 
O pensamento de Foucault busca em Blanchot, e mais especialmente na noção de Fora, que será compreendida a partir de sua filosofia, sustentação para discutir o declínio do conceito de Homem nos séculos XIX e XX. E novamente Levy, na obra acima citada:
 
O que Foucault chama de pensamento do fora nada mais é do que o pensamento que se mantém fora de toda subjetividade. (pág. 55)
 
A idéia é abrir mão da subjetividade, das ‘verdades interiores’, das certezas da linguagem. Como nos diz Blanchot (apud Levy, pág. 61) falando de Foucault:
 
Foucault não acredita nas maravilhas da interioridade, recusa as armadilhas da subjetividade, questionando onde e como emerge um discurso inteiramente superficial e reluzente, mas desprovido de miragens – um discurso que não é estranho à procura da verdade, como se acreditava, mas que finalmente revela os perigos dessa procura e suas relações ambíguas com as infinitas configurações do poder.
 
Interessa as configurações do poder e como a questão do tempo está presente nos discursos contemporâneos. A preocupação de Foucault com a linguagem vai, em ultima análise, avançar do que chama de ‘o ser da linguagem’ para o funcionamento histórico dos dispositivos de poder. Busca nas práticas, incluindo as práticas discursivas e as práticas não discursivas, os modos e os usos que historicamente estes discursos se fazem presentes. Escreve ele:
 
De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição dos conhecimentos e não, de certa maneira, e tanto quanto possível, o descaminho daquele que conhece? Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar e a refletir. (Foucault, 1988 pág. 13)
 
O lançar-se para fora, na busca da des-subjetivação, para des-enredar da linguagem que nos constitui, dos caminhos que produz o que supostamente somos parece ser o interesse de Foucault. Escreve o filosofo (1990):
 
Durante muito tempo se acreditou que a linguagem era dona do tempo, que servia tanto como vínculo futuro na palavra dada como memória e relato; acreditou-se também que sua soberania tinha o poder de fazer aparecer o corpo visível e eterno da verdade (...) pág. 71.
 
Ao definir o que seriam as praticas discursivas fala de ‘um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que definiram uma época dada e para uma área social, econômica ou lingüística dada, as condições de exercício de função enunciativa’ (2008, págs. 153-4).
 
Para integrar as práticas discursivas e as praticas não-discursivas produz o conceito de dispositivos. Para o que nos interessa nesse contexto, cabe o resumo feito por Giorgio Agamben (2009) que foca brevemente em 3 pontos que tentam definir o que vem a ser dispositivo:
 
  1. É um conjunto heterogêneo, lingüístico e não lingüístico, que inclui virtualmente qualquer coisa no mesmo título: discursos, instituições, edifícios, leis, medidas de policia, proposições filosóficas etc. O dispositivo em si mesmo é a rede que se estabelece entre esses elementos.
  2. O dispositivo tem sempre uma função estratégica concreta e se inscreve sempre numa relação de poder.
  3. Como tal, resulta do cruzamento de relações de poder e relações de saber.  
 
Em Deleuze a questão se amplia ainda mais. O foco de Foucault está colocado no espaço, especialmente, mas suas últimas obras apontam também para o tempo, como anota Deleuze (1988)
 
O Fora em Deleuze leva em conta preponderantemente a noção de tempo, mas não o tempo cronológico e sim a possibilidade de um pensar que se coloque Fora. Busca o Fora especialmente ao discutir o pensamento e a arte.  Pensar para o filósofo não é repetir o que se sabe do real, mas possibilitar o acaso, o que está Fora. Para isso, é preciso cometer uma violência, ao desmanchar as verdades prontas e o senso comum buscando a vida que, no entanto, não está desconectada do real, mas no real, a pura virtualidade ou nas palavras do próprio Deleuze (1988):
O virtual não se opõe ao real, mas somente ao atual. O virtual possui uma plena realidade enquanto virtual.
 
O virtual não tem a ver com o possível, que se associa com o idêntico e o semelhante, mas com a diferença. Produzir sentidos e conceitos, fazendo cortes no caos, é criação que em Deleuze é diferença.
 
Em Deleuze a questão tempo aparece em muitos de seus conceitos como imanência, devir, imagem-cristal, dobra mas não pretendo aqui me estender, já não é esse o intuito dessa curta fala[1]. Interessa, no entanto, a possibilidade de dispor de instrumentos mínimos para buscar a ampliação do tempo como vivido na contemporaneidade.
 
E mais: interessa compreender como o Tempo passou a ser utilizado na uma forma de controle dos seres humanos e, mesmo aqueles que de um modo ou de outro, estejam aparentemente distantes de seus tentáculos, de algum modo estão aprisionados por movimentos que constringem a vida.
 
Como pensar, a partir dessas premissas esboçadas aqui de modo breve, alguma idéia que discuta a questão do tempo no nosso tempo? Como podemos compreender o Fora do tempo?
 
O Fora do tempo
 
A partir dos conceitos de praticas discursivas e praticas não discursivas, isto é, dos dispositivos não podemos supor dispositivos do tempo? Aqui não estaríamos falando das instituições como a família, a escola, a empresa, o exército ou a igreja, mas em algo mais amplo que atravessa a sociedade em vários movimentos. Ou seja, não é possível pensar em algo como mecanismos de poder difusos que arbitram, limitam, ampliam, destacam, punem, premiam os indivíduos na sua relação com o tempo, atravessando e buscando apoio de todos os humanos?
 
A noção de tempo para uma sociedade especifica (mas de qual falamos – da local, da global?) não fica restrita apenas a um movimento, uma idéia. Ela condensa projetos, conhecimentos, praticas, conselhos e na contemporaneidade especialmente é uma noção imagética. Não temos apenas alguém advertindo que ‘o tempo está passando’, mas muito mais persuasivo, mostrando isso. Velhos saudáveis e belos sorriem (a ‘melhor idade’!), um filme que pretende convencer o consumidor a comprar um veiculo insiste com a musica ‘forever young’, jovens inspiram o descompromisso e a leveza de quem não sofre com o tempo
 
As verdades de um tempo ganham as revistas da moda, as frívolas e as chamadas ‘sérias’, nas falas dos especialistas na televisão, mas também são expressas nos gestos, nos cenários das novelas, no que comem os personagens dos filmes, o que vestem as modelos. O tempo é espetacularizado, o presente-presente é encenado em uma negação completa da história. Todos buscam um contemporâneo invejável, mas que se desmancha no próprio desespero.
 
No pensamento foucaultiano não existe poder, mas relações de poder e objetivamente esse poder se expressa através do saber. Quando o médico, o psicólogo ou a dona de casa ‘famosa’ que se deixa fotografar falam através de qualquer mídia sobre essa contemporaneidade e não necessariamente de modo direto. Falam dentro de uma vigência de tempo e de um lugar. Uma foto que retrate um ator ‘descansando’ em uma ilha de Caras emite informações, intensidades e, inevitavelmente, controles. Desse modo, faz-se necessária a cumplicidade de muitos espectadores para os conselhos médicos, mas também o outdoor, a manchete de jornal, a inscrição na camiseta. E gestos que, de um modo ou de outro, disseminem a idéia de como operar com o tempo. Formas visíveis e formas enunciáveis, mas não em uníssono como em uma ditadura. Ao contrário, a dissonância, a variedade, os conflitos que cercam o tema são encampados, encorpados, discutidos, rejeitados, sabotados, aceitos.
 
Em uma sociedade nos quais os controles dependem da anuência, da reprovação, da rejeição é preciso implicar os seres humanos, sem que nunca estejam Fora. Não importa, desse modo, se uma minoria não concorda com saberes específicos. Importa, sim, que se integre na recusa, mas jamais Fora.  
 
Os dispositivos do tempo funcionam em rede, recuperando falas, imagens, depoimentos, narrativas, negativas. Caso um grupo ultra conservador (ex. Testemunhas de Jeová e a transfusão de sangue), se apresente ‘negando’ o seu tempo, a mídia se incumbe de noticiar tal fato, colocando especialistas para ‘discutir’ o assunto, mostrando o descompasso do grupo em relação ao contemporâneo.
 
Quando falamos de Tempo e de Contemporaneidade não estamos falando evidentemente de uma mesma coisa.  O contemporâneo está associado com o atual de Deleuze e, frequentemente, imposto com o único real. Existe uma busca por uma homogeneização do sentido de tempo de modo que todos entendam sempre a mesma coisa e não múltiplos sentidos que estariam nas ‘miragens’ e no ‘deserto’, de Blanchot, na ‘diferença’, de Deleuze, na ‘resistência’ em Foucault.
 
Deleuze (1988), escrevendo sobre o pensamento de Foucault, nos diz: (...) o pensamento do lado de fora é um pensamento de resistência (pág. 96). E na mesma obra, nas paginas seguintes:
 
A vida se torna resistência ao poder quando o poder toma como objeto a vida (pág. 99).
 
A temática da constituição de um sujeito ou da subjetivação é constante em Foucault, que vem a ser a relação do individuo consigo mesmo, o afeto por si, sujeitos de sua própria existência. Se por um lado o poder investe na necessidade de criar um sujeito objetivado, produtivo, louco ou saudável, criminoso ou homem de bem, respeitável ou não respeitável, por outro os processos de subjetivação são mobilizações no sentido de constante reapropriação da relação de indivíduos consigo próprios. A resistência, portanto, está no direito à diferença, na concretude da criação. O foco de resistência precisar ser colocado nas estratégias do poder, nos jogos operativos, nos seus alinhamentos e suas armadilhas e constantes mutações.
 
O Fora, no que diz respeito ao Tempo, implica na experiência de criação, de temporalidades mutantes e descoladas de um tempo histórico, econômico, midiatica, forjando um sem número de variáveis que perpassam nossa contemporaneidade. A linguagem da poesia, do cinema, da dança, dos sonhos pode ser a repetição do Mesmo e/ou a possibilidade da experiência do Fora.
 
A arte com freqüência nos dá mostras da experiência contundente com o Fora constituindo, assim, a diferença, a invenção que desconstrói o lugar comum. Manoel de Barros (2003), por exemplo, em Memórias Inventadas nos diz em um trecho:
 
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
 
O tempo no Psicodrama
 
Gregor Samsa, o protagonista de A metamorfose, romance de Franz Kafka escrito em 1916, não existe, mas por que não conseguimos parar de ler algo que começa assim?
 
Quando certa manhã Gregor Samsa despertou, depois de um sono intranqüilo, achou-se em sua cama convertido em um monstruoso inseto. (Kafka, 1998).
 
Na narrativa o presente já não faz sentido. Aliás, é essa a ruptura: a vida dos humanos é, tantas vezes, abominável, tão abominável que nos transformamos, nós mesmos em algo inumano e, assim, a própria idéia do que vem a ser ‘humano’ fica destruída. O tempo fica inevitavelmente associado unicamente com os fiapos de tempo que temos e o que fazemos com ela.
 
O Psicodrama teria essa mesma eloqüência que a arte e, no caso de Kafka, que a literatura? Qual o compromisso que o Psicodrama tem com a vida? Somos sujeitos das transformações ou ficamos, nós psicodramatistas também, sujeitados, enredados nas tramas do poder dos quais nós mesmos somos seus cúmplices?
 
Podemos esboçar uma critica ao Psicodrama e, ao mesmo tempo, começar a pensar um projeto futuro ao agarrar o fio da noção de Tempo e o Fora do Tempo.
 
Caso o Psicodrama fique aferrado ao tempo cronológico e mesmo se a noção de Momento - o tempo da criação - se sustente em uma ‘transcendência’ que se contente apenas com um possível que não recrie a vida, faz-se um grande pacto com o conhecido.
Do mesmo modo, se imaginário significar apenas o reflexo de uma imagem do real, negada, em negativo ou positivo, ficamos rodopiando sempre nos limites do sabido não visível. Mas se imaginário apresentar o Fora, estamos mais próximo da Diferença ou na linguagem moreniana, da Criação.
 
A definição clássica de Moreno do que vem a ser espontaneidade propõe um ser humano que escolhe a escolha. Ou que leva em conta o Fora:
 
A espontaneidade opera no presente, agora e aqui; propele o individuo em direção à resposta adequada à nova situação ou à resposta nova já conhecida. (1994).
 
O ator moreniano – concreto e metaforicamente pensando  – enfrenta o tempo, o novo e o antigo. O protagonista já não atua enroscado nos seus liames existenciais, mas fora de si (Merengué,2001)[2], exatamente com o músico executa seu instrumento em um estado de descontrole. Ou o escritor que já não controla seus personagens e que ‘fazem o que querem’.
 
O Fora de si protagônico, como indicado naquela época, desconhecia ainda a abrangência do conceito de Fora. As idéias, no entanto, buscavam o fazer-de-conta que se criava quando, de fato, se repetia. O texto, sem tanta consciência, era uma espécie de libelo contra a fantasia da criação. Passados tantos anos, a luta parece continuar...
 
Não está mais que na hora de retomar a idéia de criação em Moreno? Na atual ordem, o Psicodrama, frequentemente, não busca qualquer transformação e quando muito se faz diagnósticos ligeiros de um ou outro vínculo. O Psicodrama perde seu encanto quando se deixa enroscar em uma contemporaneidade que pede soluções ligeiras, formulas prontas para saídas já pensadas.
 
A única função do contexto psicodramático visa à experiência da diferença facilitadora dos processos de subjetivação. E nesse sentido, a Espontaneidade Criadora busca o Fora: inventar passados, não ensaiar futuros com base no medo, mas inventá-los. Ao complicar os tempos que estão na língua (presente, o pretérito imperfeito, o perfeito e o mais que perfeito, o futuro, o futuro do presente e do pretérito, o tempo simples e o tempo composto, os infinitivos, os particípios e os gerúndios) e nem sempre no entendimento que a ciência programática, as religiões das normas, as artes acomodadas fazem da vida.
 
Ou em outras palavras, é possível experimentar o Tempo sem um modelo externo e determinante? É possível criar o Tempo?
 
                                                        * * *
 
Olhando no tempo o garoto com a caixa de sapatos da qual retira o relógio que não funciona, mas admira o vidro, os ponteiros, os números, a corrente e que, em seguida, o abandona na caixa não quero chorar o tempo passado em um ato de pura melancolia. Ao contrário, prefiro admirar as múltiplas possibilidades do tempo, inventando-o mais uma vez.
 
Novos Foras que podem fazer do ser humano não alguém acabado, mas amplo e atravessado, sujeito das trocas infinitas do Tempo.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS
 
AGAMBEN, G. O que é contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó: Argos. 2009.
BARROS, M. Memórias inventadas: a infância. São Paulo: Planeta. 2003.
BARTHES, R. A Câmara Clara. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1984.
BLANCHOT O livro por vir. São Paulo: Martins Fontes. 2005.
DELEUZE, G. Diferença e Repetição. Rio de Janeiro: Graal. 1988.
____________ Foucault. São Paulo: Brasiliense. 1988.
FOUCAULT, M. O Pensamento do Exterior. São Paulo: Principio. 1990
______________ A história da Sexualidade: O uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Graal. 1988.
______________ A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 2000.
LEVY, T. S. A experiência do Fora. Rio de Janeiro: Relume Dumará. 2003.
MANN, T. Morte em Veneza. Rio de Janeiro: Globo; São Paulo: Folha de São Paulo. 2003.
MERENGUÉ, D. O estar for a de si protagônico In Inventários de Afetos. São Paulo: Ágora. 2001.
MORENO, J. L. Quem sobreviverá? Fundamentos da sociometria, psicoterapia de grupo e sociodrama. Goiânia: Dimensão Editora. 1994. Vol. I
KAFKA, F. A Metamorfose. Rio de Janeiro: Ediouro; São Paulo: Publifolha. 1998.
 
 
e-mail: dmerengue@uol.com.br


[1] Um estudo sobre o conceito de Tempo em Deleuze ver PELBART, P.P. O tempo não-reconciliado. São Paulo: Perspectiva. 2007
[2] O referido texto foi escrito para um evento denominado Seminário de Teoria do Psicodrama acontecido em Serra Negra, em outubro de 93 e publicado pela primeira vez em uma livro com os textos das conferências chamado Rosa dos ventos da teoria do Psicodrama (Ágora, 1994).

CONFERÊNCIA PROFERIDA NO 17o. CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICODRAMA
Aguás de Lindóia - Setembro/2010