Devanir Merengué

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A ORDEM E O MERCADO DOS PRAZERES

SINOPSE

O autor discute a questão do prazer imposto pela ordem e aponta uma possível saída psicodramática indicada pela narrativa protagônica.

 

ABSTRACT

The author discuss  the question of    pleasure imposed by   order  and presentes a possible psychodramatic resolution presente in the protagonic narrative.

 

UNITERMOS

Ordem -  Indivíduo  - Prazer    -  Postmodernity  -  Protagonista

 

UNITERMS

Order  -  Individual  - Pleasure  - Pós-Modernidade  - Protagonist

 

 

 

No sonho, ele é um homem minúsculo caminhando em um gramado verde. Jatos de água disparados por uma mangueira quase o afogam. As próprias folhas da grama são gigantescas para ele. Em seguida, o homenzinho cresce, mas como um balão inflável, efêmero. Nessa luta desigual, fica evidente a impotência, advinda de uma fragilidade absurda. O sonho é relatado por um cliente cuja queixa é a depressão, em um período em que luta bravamente para vencê-la.

A atividade clínica, para além de todas as controvérsias inerentes e resultantes, revela, em certos momentos, recortes de um tempo. Um fragmento de sonho, supostamente indicador de uma narrativa inconsciente de um indivíduo, desvela, ao que parece, a narrativa inconsciente de uma sociedade.

Indivíduos resultam de  um tempo e um lugar? Se ao menos precariamente pudermos responder  de modo afirmativo a essa questão, talvez seja importante, também provisoriamente, tentar compreender quem é o indivíduo falado.

O “indivíduo” do sonho sugere alguém com muito pouco recurso,  embora lute contra os jatos de água, disparados por um homem grande, não muito nítido, quando  visto por olhinhos pequenos e alagados. O “dono do sonho” é, na realidade, um profissional de sucesso, adulto, com dinheiro suficiente para consumir um carro importado, com vida afetiva e  heterossexual, muito adequado ao figurino contemporâneo. Interessa pouco aqui seu histórico pessoal, mas sim o caráter protagônico de seu sonho.

Como na tragédia grega, o protagonista é mais que um homem que caiu em desgraça: desfocado, sofrido, falido, ele representa com sua história uma crônica dolorida de uma sociedade. A idéia de indivíduo, se pensada como alguém com contornos  nítidos, fica aqui bastante prejudicada. Ao contrário, é  alguém esborrado, fora de si (Merengué, 2001: 93 ) desadaptado, descentrado, excluído.

Nesse ponto de vista, o sonho desvela justamente aquilo que parece não estar presente na narrativa oficial: nunca o indivíduo foi tão forte, nunca o desejo do indivíduo foi tão atendido, nunca como agora as individualidades se mostraram tão operantes, nunca um sistema respeitou tanto o homem e seu desejo.

O sonho recortado aleatoriamente de uma história, escolhida dentre tantas outras histórias, pode ser até banal. A argumentação que faço a seguir, no entanto, procura justificar essa escolha, não por mero capricho do autor, mas sim na busca de um espelho que tente, de algum modo, sugerir um retrato da nossa angústia encarnada. Essa argumentação pinça no cotidiano de nossas ações, elementos que possam esboçar o indivíduo da narrativa oficial  e seus papéis sociais e imaginários e  o indivíduo da narrativa inconsciente e seus papéis imaginários.

Assim, dentre o descrito e o temido, para além de clichês higienizados, entre o suposto ganhador e o dolorido perdedor, temos humanos que buscam prazer. Essa procura talvez possa sugerir um itinerário protagônico desse indivíduo e da nossa sociedade, que se revela sempre: quando ganha, quando perde, como demanda, de onde espera satisfação.

 

 

 

1.  O indivíduo e a Ordem

 

Na definição de ordem dada por Bauman (1998:15) tem lugar a hierarquização, as probabilidades. Assim escreve o sociólogo:

 

       “Ordem” significa um meio regular e estável para nossos atos; um mundo em que as

         probabilidades dos acontecimentos não estejam distribuídas ao acaso, mas   

         arrumadas numa hierarquia estrita – de modo que certos acontecimentos sejam

         altamente prováveis, outros menos prováveis, alguns virtualmente impossíveis. Só um

         meio como esse nós realmente entendemos.

 

Evidentemente  ele fala de um universo mapeado, com indicações  e significados. E acrescento, de uma realidade construída-em-nós, com um imaginário apropriado. Não se fala aqui de um imaginário criativo, mas de um imaginário funcional, um imaginário-sombra de uma realidade supostamente flexível.

Interessa  falar da relação entre ordem e indivíduo.

Na atual ordem, sempre atenta e flexível,  nosso mundo é de fato organizado, prioritariamente,  segundo o poder de consumo dos indivíduos. A idéia de consumo muito mais que a aquisição de bens materiais estende-se ao comportamento, a atitude, a subjetividade. A ordem tenta organizar a realidade e o imaginário hierarquizando seus consumidores, incentivando cada vez mais a aprimorar o ato de consumir.

Consumir, adquirir, comprar, incorporar passa a significar ser um indivíduo. A construção do indivíduo do nosso tempo diz respeito ao local onde mora, ao carro que possui, ao salário que ganha, aos títulos obtidos, ao restaurante aonde vai, ao grau de arrogância, ao número de criados, de cartões de crédito, de aparelhos eletrônicos que possui. Mas também as línguas que fala, aos países que visitou, a beleza das mulheres com quem se relacionou, a ascensão na carreira, aos livros escritos, ao numero de artigos publicados nas revistas científicas, a quantidade de citações de um determinado artigo (como sabem tão bem os acadêmicos), na quantidade de silicone utilizada nos novos seios, e pasmem, ainda no tamanho do pênis.  Talvez nada disso seja novidade em qualquer tempo. A novidade está no sentido midiático com que essa ordem opera. Trata-se de um jogo feito de sedução e imagens.

Na verdade, esse indivíduo da oficialidade estrutura-se primeiramente em torno de um corpo, de uma imagem de corpo. Assim, no começo temos um corpo como um dia tivemos o verbo. Esse corpo deve ser adquirido, conquistado, porque ele é O CORPO, modelo dos modelos. O modelo é desfilado pelas passarelas do mundo, nas figuras dos  e especialmente das tops models, pessoas privilegiadíssimas por serem bonitas e  muito, muito bem pagas. Não desfilam apenas modelos de roupas desenhadas por estilistas famosos, mas beleza e juventude. Isso significa saúde, magreza, altura, “atitude”. E mais do que pessoas, (na verdade consumidas e expelidas com uma rapidez incrível pois sugadas nas suas juventudes) o que vale é a imagem,  a imagem etérea e inacessível do corpo.  Mas também nos gurus, celebridades instantâneas, que ensinam como fazer sucesso, como ganhar dinheiro, receitas para isso e aquilo. Assim, é evidente que um corpo precisa de uma “atitude” de alguém que não seja um perdedor.

A ordem, desse modo, produz os tais objetos do desejo: existe um corpo bonito, jovem, “malhado” e depois, bem vestido e rodeado por todos os lados com os tais produtos de consumo, com idéias de vencedor. Assim, o produto faz parte do negócio, mas não é o negócio. Não interessa tanto vender uma calça, mas uma grife e uma idéia. Seria tão bom que, além de consumir coca-cola, se consumisse também um modo de ser consumidor. Na verdade, seria tão bom que o controle fosse  total, que os indivíduos se portassem de modo o menos rígido possível, com identidades flexíveis, as mais adaptáveis. Não se espera mais identidades fixas, não se espera indivíduos conservados em seus ternos, suas crenças, seus valores, suas religiões. Espera-se pessoas que consumam muito, rapidamente, olhando seriamente para os prazos de validade do iogurte, do carro, do marido e até do filósofo da moda.

Retomando Bauman (2001:43)

 

        “ (...) ... a individualização é uma fatalidade, não uma escolha. Na terra da liberdade

           individual de escolher, a opção de escapar da individualização e de se recusar a

           participar do jogo da individualização esta decididamente fora de jogada”.

 

Olhando para os indícios dessa busca desesperada do indivíduo, temos referências no cotidiano, nos anúncios, na lista dos best-sellers, nos programas de entrevistas, nas revistas coloridas e domingueiras. Os indícios estão por todos os lados, em todos os lugares.

Se algum dia, os modelos fotográficos eram necessariamente simpáticos, porque antes de mais nada se sabiam vendedores de produtos, continuam lá, muitas vezes,  sorridentes com a margarina na mão. Mas agora  um modelo pode ser decididamente blasé, ou seja, se portar como se “não estivesse nem aí”. Essa  arrogância, também “vende”: “olha lá, como ela é poderosa, como pode!”. Dentro dessa lógica, o tamanho da antipatia revela sua suposta força.

A fantástica escalada dos livros de auto-ajuda nas últimas décadas impressiona. Em determinado momento, o mundo parece decidir que é preciso “fortalecer o ego”. Talvez um dia isso tenha sido algo sério, fruto de estudo e pesquisa, mas hoje está a serviço da tal “individualização” que nos fala Bauman. Ninguém com o mínimo de bom senso acredita que tais livros façam mal, mas apenas e tão somente revelam a fratura de uma trama. Como se o indivíduo devesse ser consertado, melhorado, lustrado. Sempre a constante e  insistente necessidade da auto-afirmação.  A questão a ser feita é: por que tanta preocupação com o indivíduo? Por que essa obrigação vigilante com sua sobrevivência?

Os talk-shows e a revistas que reverenciam o indivíduo-produzido-pela-ordem se proliferam. Todos falam de si, de sua casa, de seu namorado, de sua carreira. E mostram a “intimidade”, os filhos, o quarto, o banheiro. A idéia é mostrar a “vida real” do artista, mas também do homem comum. Sim, definitivamente, no nosso tempo todos temos nossos minutos de fama. Rápidos, fugazes, mas não se pode reclamar...

Imagens disseminadas para todas as classes, respostas diferenciadas, singularizadas modulam uma sociedade e uma época. 

Os grafiteiros de muro, de prédios tentam atingir lugares cada vez mais altos, marcas cada vez mais identificáveis, porque procuram justamente uma identidade reconhecível, um lugar. Do mesmo modo, as gangs urbanas que exercitam a violência para confirmar seu poder mais e mais.  A necessidade premente é sair de um anonimato arrasador e para isso vale-tudo. Uma certa violência contemporânea está claramente associada a necessidade de confirmação. A inserção nestes grupos é, na verdade, uma tentativa de forjar uma “identidade fixa”, como, por exemplo, os torcedores de um time de futebol. Tudo isso revela-se inócuo, longe de poder modificar qualquer coisa nele próprio, esse indivíduo nem sabe que está preso a um tal universo. A tentativa é fugir de uma fragmentação imensa,  buscando identidades previstas, lugares supostamente seguros, indicados pela mídia, mas também pelas saídas desesperadas, frequentemente atravessadas pelo fanatismo, pelas idéias totalitárias. O filme Clube da Luta (Fight Club, EUA, 1999, dirigido por David Fincher) mostra um indivíduo solitário e esvaziado e seu duplo, um sujeito cheio de si, capaz de praticamente tudo. A impotência e a onipotência caminham muito juntas, resultando massacres terroristas espetaculares. Aliás, definitivamente, o espetáculo aparece como saída para esse indivíduo aniquilado. Quanto mais excluído o indivíduo, mais busca o espetáculo feito de auto-afirmação, de grandeza narcísica.   

E ninguém escapa, mesmo os homens e mulheres tidos como sérios e competentes, participam dessa sociedade do espetáculo. As imagens são buscadas desesperadamente, porque antes de mais nada parece que ela, a imagem, é verdadeira. Não nós, meros humanos, que não estamos representados, que não somos ainda  imagem. A imagem apresenta o indivíduo do discurso oficial. A tela transforma o fraco em forte. É impressionante como aparecer na televisão, por exemplo,  fascina tanto o operário, a dona de casa,  o jogador de futebol, mas também o intelectual, o empresário.   

A sociedade do espetáculo esborra os limites entre o verdadeiro e o falso, assim como as fronteiras entre o eu e o mundo, mas faz da “presença real da falsidade garantida pela organização da aparência” (Debord  1997:140)

Estranhamente, pactuamos com o que sabemos ser total ou parcial mentira. Tudo é fake, artificial.  Não se entende o mecanismo com exatidão.  Apenas e tão somente precisamos fazer de conta que é verdade e jogar o jogo.

O indivíduo-produzido-pela-ordem é cooperativo. Sabe que se seguir as normas (sempre mutantes, mutáveis) pode ganhar o prêmio. Como  conseguir isso,  é justamente a postura correta com relação ao consumo. Consumir é algo absolutamente individual e solitário, mas sempre com vistas a este Outro, que não chega a ser Alguém, mas fundo, platéia. Sempre aberto as novidades que fariam dele supostamente esse Alguém, frente aos outros. Para a ordem vigente importa criar um  sentimento de inferioridade tal, que “apenas” se resolverá com um novo corpo, um novo cabelo, um novo carro, olhos castanhos trocados por verdes, uma nova mentalidade.

Inevitavelmente, a figura de Narciso surge mais forte que nunca.

Mais que figura mítica ou clichê das psicologias, surge aqui vivificado buscando espaço, lugar. Um pobre Narciso ainda belo, escultural, poderoso, mas frágil, muito frágil, quando olhado para além da aparência.

Narciso não está exatamente apaixonado por si. De fato, ele precisa se apaixonar, mas sua auto-estima é sempre precária. Olha no espelho com freqüência para garantir que a imagem não fuja, para assegurar uma fixidade, para saber que ainda “esta lá”. Trata-se de um jogo difícil, intenso, desesperado, ao contrário do que possa mostrar a aparência fútil.

O filme “Psicopata Americano (American Psycho, EUA, 2000, dirigido por Mary Harron)         é interessante nesse sentido: descreve altos executivos de empresas em uma competição acirrada. A rivalidade acontece com a exibição de cartões de visita mais e mais sofisticados, através das grifes caríssimas,  no ato heróico de conseguir um bom lugar no restaurante da moda. Narciso não descansa. Precisa se fortalecer, mas fortalecer alguém que ele nem sabem quem é,  tal sua fragilidade.

 

 

2. A Falência do Indivíduo

 

Retomando o sonho relatado, a miniaturização revela um sentimento mais do que  presente no homem atual. Algo como se nunca fosse bonito, rico, competente, amoroso o suficiente. Sem trégua, no entanto, é bombardeado por mensagens do tipo “basta querer”, “se você quiser pode mudar”. Frequentemente ele quer, mas pouca coisa acontece, a não ser um tremendo sentimento de culpa. Não sentir depressão depende dele, melhorar a camada de ozônio depende dele, não eleger governantes corruptos depende dele.

O esforço, no entanto, parece ser precário. A depressão continua presente, o noticiário sobre a ecologia é terrível, os corruptos continuam firmes e fortes,  independentemente  do partido que esteja no poder.

A impotência invade o indivíduo, forte na aparência, mas fragilíssimo nos sonhos. Muitas vezes durante o dia somos obrigados a constatar isso também, já que as evidências são fortíssimas.

A consciência da morte é imensa e midiatizada. As imagens que transmitem as guerras, a fome, o acidente aéreo, o confronto da policia com os traficantes, violências diversas em qualquer parte do mundo, ataques terroristas e ataques banais, sequestros.

Temos clareza difusa da realidade da morte. Ela está espalhada, à espreita como sempre esteve, mas agora temos “comprovação científica”, midiatica  da sua existência. Um sentimento de constante incerteza vindo de líquidos, gazes, vírus, bactérias, movimentos: esperma contaminado, sangue contaminado, gazes mortíferos, gorduras obstruidoras de veias, aviões descontroladas, balas perdidas, tocaias na noite.

Tudo pode ser visto, tocado na pele fria e azulada da tela.

Por outro lado, talvez seja necessário negar em certa medida a existência da morte. Como suportar tanta “realidade” na tela?

Narciso nega a existência da morte, mas sabe que ela ronda de fato, crua ou invisível.

Quando olha no espelho para assegurar uma corporeidade e parece nunca se ver, nunca se apreender, pois vê apenas uma imagem pouca generosa que nunca devolve ao Narciso contemporâneo aquilo que supostamente ele é. Precisa, então,  de uma representação maior, mais confirmadora.  Narciso esta definitivamente atravessado pela ordem que diz “você não é, mas temos a solução para sua existência”.

Na tentativa de superação de um estado absolutamente opressivo, o  homenzinho do sonho torna-se leve, inflável como um balão. Uma leveza que não traz qualquer segurança, mas sim um tamanho grande facilmente destrutível. A leveza visa também garantia de manipulação.  Novamente uma “aparência” e não uma construção.

De qualquer modo, parece ser difícil compreender o que seria essa construção.

Narciso olha incrédulo para os aviões destruindo edifícios belíssimos. Sente seu corpo sendo perfurado. Toda onipotência cai literalmente por terra. Tudo aquilo parecia eterno e a eternidade é um privilégio.

Mas Narciso é também um terrorista. Ele crê, ele busca garantia absoluta nos braços de um deus, para ele, o único e  verdadeiro e que faria dele, um fraco, Alguém.

Narciso está cansado, fraturado, despedaçado, mas sem saída.

Produz fantasias escapistas elegendo um idílico lugarejo, um idílico tempo, uma terra prometida. Uma Pasárgada qualquer. 

De qualquer modo, ficamos entre uma promessa de força que se desvela inconsistente e uma fragilidade que não se sabe para onde leva.

 

3. O mercado dos prazeres

 

Nosso mundo e nosso tempo apresentam uma imensa oferta de prazeres. Todas as sexualidades são contempladas, novas sexualidades são criadas e vendidas. O mercado de imagens obscenas está aberto para quase todos, qualquer dia, qualquer hora. Os controles moralistas são praticamente obsoletos e servem “para constar”. Os cinemas pornôs das grandes cidades exibem produções para todos os públicos, em sessões corridas.  

Um cinema pode também ser transformado em um templo religioso. Aqui talvez seja complicado usar a palavra prazer. De qualquer modo, podemos imaginar que estas pessoas fragilizadas busquem algo próximo disso: felicidade, conforto para a alma, bem-estar.

A palavra prazer parece estar associada ao corpo, as sensações advindas dele. A religião, pelo menos a ocidental, parece horrorizada/ fascinada com os prazeres corpóreos. Um cinema que exibe filmes pornográficos não deveria ser confundido com  religiões instaladas nos mesmos cinemas. Ambas as possibilidades, no entanto, são saídas, supostamente prazerosas,  para o indivíduo fragilização contemporâneo.

Além destas ofertas, novas ginásticas, novos cosméticos, novos modelos eletrônicos, novos carros,  novos modos de vida, novas filosofias: nosso mundo parece ser tão criativo! É tão infindo o mercado de prazeres, com lojinhas uma próxima da outra... As idéias de felicidade são vendidas por pessoas  que, na versão deles próprios, atingiram o sucesso.

As novas e fantásticas drogas utilizadas contra a depressão, são usadas também para quase todos os outros sofrimentos: problemas físicos cujas causas não sejam claras, insônia, dependência de drogas, de cigarro, de  álcool. Toda a indústria farmacológica busca um alívio para nossas dores. Retirar a dor pode não trazer prazer, mas parece ficar mais próximo dele.

As terapias buscam soluções  rápidas. Novas ofertas tentam acompanhar a velocidade da dor na chamada pós-modernidade. Tudo parece ser tão ágil, tão efêmero, tão provisório.

O homem da pós-modernidade,  organizado à partir de  imagens, fragmentos, sentimentos substituíveis, sensações moldáveis, identidade flexível, não deixa de arrastar algo de arcaico dentro de si.

Na fragilidade pede sempre cuidado, atenção, proteção. Parece que, definitivamente, não vamos nos livrar nunca dessa delicadeza por mais embrutecidos que possamos ser. A ordem vigente não descuida daquilo que é mais primário em nós. É sempre sobre carências enormes que ela trabalha. Sabe que temos horror a morte,  vende, então,  beleza (do bebê, do adolescente, da mulher). Sabe que temos medo da velhice, vende juventude, cremes, ginásticas. Sabe que  nos incomodamos com a impotência, vende carros, Viagra, cocaína, grifes poderosas, planos de saúde. Nesse mundo não existe acaso. As ofertas são renováveis a cada semana, o consumidor tem mais direitos que o cidadão, sendo o Procon uma das poucas instituições que funciona com alguma eficiência.

Do que reclamamos então? Nunca fomos tão cuidados, nunca fomos tão felizes, nunca tivemos tanto prazer... Apesar disso, o mundo que vivemos é bastante cruel, injusto, feio, aterrorizante.

O indivíduo produzido pela ordem deve negar o horror de nosso tempo - é quase insuportável, apesar de distante muitas vezes, frio, estranho. O horror está  atrás de uma tela e devemos fazer tudo para que ele não se concretize, fugindo,  se escondendo, ou absorto e estarrecido, como se fosse um filme.  Não deve ver a barbárie produzida pelas diferenças sociais, pelas diferenças religiosas, pelas diferenças econômicas. O indivíduo de nosso tempo deve cuidar dele próprio, desesperadamente, porque as saídas são não coletivas. Precisa cuidar do emprego escasso, da carreira,  do carro novo, da casa sujeita a roubo, da saúde. Precisa cuidar, enfim, da escassa vida... Assim, viver não parece ser  mais fácil que viver em qualquer outra época, apesar de todos os avanços produzidos por nós. 

 

4. Onde fica a saída?

 

Lasch (1986:162) sugere que a saída para o tal indivíduo enredado na ordem está na busca de uma “separação criativa entre separação e união, individuação e dependência”. O  homem pós-moderno busca prazeres solitários, altamente individuados (como o carreirista), ou prazeres coletivos, os quais fariam dele um homem individuado (como o torcedor de um time). A proposta de Lasch faz do indivíduo alguém que transita entre a dependência e a independência. Não nega o outro, nem nega a si próprio. Sabe que é frágil, sabe que é forte, sendo estas instâncias definitivas e/ ou fugazes. Falamos, pois, de fragilidades conhecidas ou forças conhecidas, assim como de fragilidades fugazes ou forças fugazes.

Buscas individuais se mesclam com outras coletivas. Desse modo, indivíduo e coletividade são instâncias separadas, mas conexões de toda ordem faz do homem alguém participante, co-participante de toda ordem.

As grandes questões humanas podem ser encontradas nos dramas do cotidiano. Ao revelar o sofrimento do homem contemporâneo, estamos desvelando também o drama da sociedade atual.

As soluções humanas mais efetivas, como percebo na atualidade,  parece concentrar mais nas comunidades, nos grupos, na vizinhança, nas relações de amizade do que naquelas oferecidas pelo Estado, pelo menos no caso brasileiro. Nos sentimos frequentemente orfãos, no que diz respeito à cidadania.   Assim, para o bem e para o mal, necessitamos de cuidados dos pares, tão desamparados como nós.

 

5. O protagonista

 

Um conceito de grande utilidade é o de protagonista, criado por Jacob Levy Moreno [1] . Inspirado na tragédia grega, o autor não pensa o homem apenas como indivíduo com uma subjetividade própria, mas, para além disso, argumenta em favor de alguém atravessado por subjetividades diversas. O indivíduo protagônico estaria na interseção entre ele e o outro, na medida em que sua questão mais do que retratar um mero problema pessoal, ganha abrangência.

O protagonista é, justamente, o homenzinho do sonho, caso um grupo “autorizasse” esse protagonismo. Ou em outras palavras, um grupo, uma coletividade necessitaria se reconhecer na história contada. A narrativa do indivíduo ganharia uma conotação simbólica, no sentido de algo suficientemente simples e intenso capaz de impressionar, horrorizar, comover, irritar um grupo.

A cena psicodramática se aproxima da cena onírica pelo modo como os elementos do social são tratados. O imaginário organiza e desorganiza, põe e dispõe obedecendo  critérios do desejo, editando as imagens  em questão.

A narrativa protagônica descreve, em primeiro lugar, um conflito, transportando o real para o contexto psicodramático ou produzindo metáforas sobre o chamado real. Ao encenar um conflito, fica também indicado os caminhos que o desejo percorre.

Quando o protagonista é confrontado com o seu desejo, temos, então, um segundo tempo de sua narrativa. O que fará agora? Fica instaurado um possível espaço para a criação.

Já não mais representante do discurso oficial, dos clichês conservados, mas sujeito de um modo inventivo de ver a mesma realidade. Aqui já não importa o modo como expressa sua invenção: se através do corpo, da palavra, das artes, das ciências. Importa encontrar um modo singular de expressão, possível veículo para alguma mudança.

 

Retomando o sonho do nosso protagonista: como ele nos  toca?

O clima do sonho, importante em qualquer compreensão que se faça, mostra-se sufocante. Forças muito para além dos recursos do pequeno homem ser revelam impotência e desamparo. A solução produzida revela ser uma saída pífia.

Situações kafkanianas do nosso cotidiano poderiam facilmente se identificar com a dramatização onírica: burocracias, conflitos, violências das mais diversas, devastações emocionais diversas.

Ao contrário do que diz todo discurso oficial, não se trata aqui de negar a fragilidade humana, inventando uma força bastante discutível e, aparentemente, demais superficial, de fato, uma blindagem. Ao confrontar o drama humano, olhamos para todos os dramas humanos. Desse modo, começamos a perceber um elo que amarra todas estas narrativas.

Na medida do possível, talvez apareça a chance de identificar o “grande homem”, com sua mangueira fálica e agressiva que age de modo impassível e alienado. Talvez até se identificar com esse homem, desvelando, então, a  conexão secreta com o agressor.

 

Mas, por fim, sobra uma questão: e o prazer?

Ao discutir a questão do prazer alguns estudiosos dissociam completamente prazer de sociedade. Todo debate fica colocado com se o indivíduo estivesse solto. Mesmo quando articulam prazer e religião, prazer e vida amorosa, prazer e felicidade, prazer e trabalho... tudo fica excessivamente centrado no indivíduo ou na sociedade, sem discutir a tensão aí produzida, os modelos de prazer permitidos, os interditos e, por isso, mais “permitidos” ainda e aqueles absolutamente negados porque fora do catálogo e, portanto, fora do controle. A discussão foucaultiana contempla  essas questões com grande abrangência.

De qualquer modo, ao encarnar estas idéias, trazendo a cotidianeidade do prazer e do não-prazer temos sempre um indivíduo lutando por alguma sobrevivência, por algum conforto, por alguma felicidade, por algum prazer. A retirada do desprazer não garante necessariamente prazer.

Faz-se necessário a criação de novos prazeres, embora isso não garanta que uma subversão criativa escape do controle e da mercantilização da ordem. Foucaltianamente sabemos que prazeres criados à revelia da ordem são classificados, integrados e, depois, vendidos no grande mercado.

De qualquer modo, a criação torna-se necessária, vital.

O protagonista, ao rever, seu pacto com a ordem pode buscar a separação, pode refazer trajetos, projetos. Sua fragilidade ganha um outro sentido: já não é inteiramente responsável por ela, mas na medida em que sente amparado pelos iguais, se fortalece para a criação.

Faz-se necessário, antes de mais nada, produzir estes espaços de criação que funcionem, ao menos precariamente como lugares de exercícios subversivos, experimentais em qualquer campo do conhecimento.

Já não mais um prazer dissociado, ou criações dissociadas do mundo, mais respostas prazerosas e criativas a esta realidade. Sabemos da provisoriedade dessa produção, mas não parece restar aos pobres consumidores atuais uma saída mais abrangente.

Com isso falo do prazer lastreado na horizontalidade dos vínculos, mais do que nas  buscas idealizadas, verticalizadas. Ao mesmo tempo, não existe qualquer possibilidade de negar a realidade, mas de produzir transformações.

 

Outros homenzinhos minúsculos talvez se aproximem e ao assistir ao Drama Humano que aí se desenrola, gritarão alto, produzirão piscinas, atacarão as pernas do grande homem, farão cócegas, desligarão a torneira.

Quem sabe um dia a torturante água do esguicho não poderá ser um breve, mas suave banho refrescante. 

 

 

 

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

BAUMAN, Z. (1998). O Mal-estar da Pós-Modernidade. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor.

 

____________  (2001).  Modernidade Líquida.. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor.

 

DEBORD, G. (1997).  A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro, Contraponto.

 

LASCH, C. (1986). O Mínimo eu: sobrevivência psíquica em tempos difíceis. São Paulo, Brasiliense.

 

MERENGUÉ, D. (2001) Inventário de Afetos. São Paulo, Editora Ágora.

 

 

 

 

 

 

 

 

 



* Texto apresentado no Ciclo de Debates “Lazer e Motricidade”, em Outubro de 2001, organizado pelo Departamento de Estudos do Lazer, da Faculdade de Educação Física, na UNICAMP – Universidade de Campinas SP. Na presente versão foram incluídas algumas alterações em relação ao texto original. 

** Psicólogo, Psicodramatista, Professor-Supervior pela Federação Brasileira de Psicodrama (Febrap). Docente no Instituto de Psicodrama e Psicoterapia de Grupo de Campinas SP

[1] O conceito de protagonista recebeu contribuições de téóricos brasileiros, mas essas contribuições não alteram seu sentido primeiro. Ver nesse sentido Naffah Neto, A (1979) Psicodrama. Descolonizando o Imaginário, S. Paulo, Brasiliense. Aguiar, M (1988). Teatro da Anarquia Um resgate do Psicodrama, Campinas, Papirus. Falivene R. Alves, L (1999) in Grupos a proposta do Psicodrama. S. Paulo, Ágora, dentre outras.